Título: Embraer começa processo para sucessão de Botelho
Autor: Vanessa Adachi
Fonte: Valor Econômico, 23/01/2006, Empresas &, p. B2

Reestruturação Novo presidente, a ser eleito em 2007, deve ser "interno"

A reunião do conselho de administração da Embraer na quinta-feira, dia 19, foi marcada por forte emoção entre os participantes. Uma vez aprovada a reestruturação societária que vai pulverizar o controle da empresa, ficou também acertado o início da sucessão de Maurício Botelho como diretor-presidente da fabricante brasileira de aviões. À frente da companhia desde 1995, com a sua privatização, Botelho conduziu a sua virada, de uma empresa sucateada a uma das quatro principais do setor no mundo, depois da européia Airbus e da americana Boeing e ao lado da canadense Bombardier. Agora, ele só ficará pouco mais de um ano no cargo. Em abril de 2007 um novo diretor-presidente será eleito e Botelho permanecerá como o "chairman" da Embraer pelo menos até abril de 2009, quando vence o seu mandato. "Ninguém é eterno e a renovação é um dos fatos mais saudáveis da vida", disse Botelho na sexta-feira em conferência com a imprensa. Segundo o executivo, a decisão de ficar só até 2007 no cargo foi sua. "No início de 2004 eu levei ao conhecimento dos controladores que se me honrassem com mais um mandato na presidência da empresa, aquele seria o último." Pessoas próximas à empresa consideram quase certo que seu sucessor será uma cria da casa e não um executivo contratado no mercado. O próprio Botelho sinaliza nessa direção. "A definição da sucessão transcende a vontade do executivo principal, mas não tenho dúvidas de que preparamos pessoas habilitadas e competentes na Embraer", disse aos jornalistas. Em conversa com analistas, ele foi na mesma linha. Se o sucessor já foi definido, a decisão é mantida em sigilo e não são dados sinais internamente. Mas alguns acreditam que Frederico Curado está sendo preparado para assumir a companhia. Ele ocupa a vice-presidência executiva para o mercado de aviação civil, justamente o principal filão de negócios da Embraer, que responde por 75% de sua receita. Outras apostas recaem sobre Antonio Luiz Pizarro Manso, o vice-presidente corporativo e de relações com investidores. Em eventuais períodos de ausência mais prolongada de Botelho, é ele quem costuma tocar a empresa. Botelho destacou que um dos principais objetivos da ampla reestruturação, que levou um ano e meio, é deixar a companhia apta a captar recursos no mercado acionário para financiar novos projetos no futuro. Na operação, a Embraer foi assessorada pelo banco de investimentos Goldman Sachs. Com a atual estrutura societária, a empresa não conseguia fazer chamadas de capital junto aos acionistas preferencialistas porque, para que os controladores não fossem diluídos (a lei determina a manutenção de um terço de ações ordinárias para dois terços de preferenciais), teriam que acompanhar o aumento de capital. "Temos dois fundos de pensão no bloco de controle, que têm limites para aplicar em ações. E Previ e Sistel já ultrapassaram esses limites." Com a nova estrutura de capital, a companhia não terá limitadores para fazer emissões de ações quando precisar. Botelho ressaltou que nos próximos anos a companhia terá que fazer investimentos muito mais pesados do que os realizados nos últimos onze anos e que totalizaram US$ 2,3 bilhões. Para se manter à tona, disse ele, a empresa terá que investir em "novas formas de abordar o mercado de aviação comercial", além de desenvolver a nova família de jatos executivos Phenom, o novo Legacy e as versões executivas dos jatos 170 e 190. Apesar disso, a empresa não planeja fazer aumentos de capital no curto ou médio prazos. O que não está descartado, entretanto, é a venda de participações dos antigos (atuais) controladores, com destaque para a Sistel. Botelho enfatizou que o segmento de aviação executiva é a nova grande aposta da empresa para alcançar a meta de diversificar sua receita. O setor de defesa, em que a companhia apostava suas fichas, frustrou as expectativas. De acordo com ele, a meta é que a receita de aviação comercial desça a 60% do total, e que defesa e aviação executiva respondam por 40%.