Título: Cartilha vai orientar tomador de crédito
Autor: Janes Rocha
Fonte: Valor Econômico, 23/01/2006, Finanças, p. C1

Uma cartilha de orientação para quem procura empréstimo com desconto em folha (consignado) será um dos primeiros resultados concretos da Câmara Técnica de Consumo do Setor Bancário, órgão consultivo formado por membros da Fundação Procon São Paulo e da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). A decisão foi tomada na última reunião da Comissão em dezembro e, segundo a diretora executiva do Procon, Marli Sampaio, a cartilha foi um dos primeiros pontos de consenso entre os participantes da Câmara, criada em julho de 2005 para discutir os problemas no relacionamento entre bancos e os consumidores. O objetivo é evitar o descontrole financeiro que vem afetando muitos tomadores de empréstimos, principalmente no crédito consignado, o que tem preocupado não só o Procon mas também entidades ligadas a comerciantes e aposentados. "Com rendimentos já defasados, o aposentado está tomando empréstimo sobre empréstimo, muitas vezes não só para ele mas também para pessoas da família", diz Benedito Marcílio Alves da Silva, presidente da Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (Cobap). Segundo ele, já houve casos de aposentados que sofreram ataque cardíaco ao receber o contra-cheque com os descontos dos empréstimos. Antonio Carlos Borges, diretor executivo da Federação do Comércio no Estado de São Paulo (Fecomércio), afirma que se a economia brasileira estivesse crescendo tanto quanto as dos outros países emergentes, a expansão do crédito para as pessoas físicas seria até saudável. Mas no ritmo lento imposto pela política monetária do Banco Central, o avanço do endividamento torna-se preocupante. "O crédito ajuda quando a renda da população é alta ou está em alta. Mas se o nível de renda não cresce, a tendência é aumentar a inadimplência", comenta . Por enquanto, a situação está sob controle. Na última Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), elaborada mensalmente pela Fecomércio, o nível de endividamento das pessoas físicas apontou para uma ligeira alta, de 61% para 63%, num grupo de quase mil entrevistados. A inadimplência, entretanto, diminuiu, o que tem a ver com o pagamento de décimo terceiro salário, que leva os trabalhadores a quitarem suas dívidas. Borges acha que isso não torna a situação de endividamento menos grave, até porque os brasileiros têm o perigoso hábito de comprar a prazo sem olhar para o quanto estão pagando no total, apenas para o que cabe no bolso, o que leva fatalmente a descontroles. "Com a elevada taxa de juros embutida no preço dos produtos, está havendo uma transferência de renda dos consumidores para o sistema financeiro", afirma o diretor da Fecomércio.