Título: Gabriel Maciel, um "bombeiro" na crise da aftosa
Autor: Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 27/12/2005, Agronegócios, p. B8

Sanidade

Há quase um ano à frente da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, o potiguar Gabriel Maciel não imaginava que a febre aftosa, uma velha "inimiga", daria tanto trabalho em 2005. Afinal, ele chegou a Brasília credenciado justamente pela erradicação da doença em Pernambuco durante sua gestão como secretário da Agricultura do Estado. A "vingança" do vírus foi implacável. Ressurgiu no Mato Grosso do Sul em outubro e catapultou o secretário ao epicentro de uma crise política envolvendo o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), em razão da controvérsia que há mais de dois meses cerca a confirmação de casos no Estado. Duro em negociações comerciais e hábil nos embates políticos, Maciel, filiado ao PFL, tornou-se uma peça vital no tabuleiro que opõe ministério e Paraná. Discreto, tem usado conselhos e canais partidários de seu padrinho político, o governador pernambucano Jarbas Vasconcellos (PMDB), para tentar aplacar a ira de Requião contra o ministro Roberto Rodrigues. Uma nova reunião entre as partes sobre o tema, hoje em Curitiba, poderá medir a eficácia de suas costuras. Mas, embora um conciliador, Maciel é duro ao criticar os procedimentos do Paraná no caso de São Sebastião da Amoreira, onde 2.212 reses estão sob suspeita de contaminação. "O único caminho para o Paraná é fazer o sacrifício naquela propriedade [fazenda Cachoeira] para voltar ao mercado em seis meses", disse ao Valor. "Em outras oito fazendas podemos fazer novos testes, inclusive de DNA, para identificar o vírus. Mas não podemos liberar antes de seis meses". O Paraná nega a doença. Maciel reafirma que não voltará atrás na decisão do ministério de reconhecer o foco. "Já tomamos uma posição definitiva, referendada pela OIE [Organização Mundial de Saúde Animal]. Afinal, quem anunciou o foco foi o próprio governo do Paraná". O vice-governador Orlando Pessuti (PMDB) admite o anúncio, mas diz que foi prudência e correção de seu governo. Prestigiado por Rodrigues, Maciel evita alimentar a "politização" da divergência. Segundo ele, está claro o vínculo entre o gado da fazenda Bonanza, em Eldorado (MS) - primeiro foco de aftosa do país neste ano -, e os animais de São Sebastião da Amoreira. "Deu 50% positivo para a doença no [exame] Elisa e 22% no [exame] EITB". Pessuti afirma, entretanto, que os testes da Bonanza têm resultados negativos desde então. Diplomático, Maciel isenta o Paraguai de "culpa" pelos focos em Mato Grosso do Sul. "É uma questão de vigilância sanitária. Houve erro de todos. O produtor não vacinou, o Estado não fez seu trabalho de vigilância corretamente e o ministério não fiscalizou", resumiu. Doutor em botânica e genética nos EUA e na Índia, o secretário apresenta uma receita ambiciosa para controlar a aftosa no país. Vacinação conjunta em fevereiro e uso do geoprocessamento de imagens por satélite pela Embrapa na fronteira com Paraguai e Bolívia. Também o foco dos gastos federais mudará radicalmente, para 80% em investimentos e 20% em custeio. "Vamos investir em informatização dos sistemas de defesa, GTA eletrônica e renovação da frota dos Estados", diz. "Vamos controlar 25 quilômetros de ambos os lados das fronteiras, cadastrar todas as propriedades nessas regiões e identificar rebanhos com brincos de cores diferentes". Na outra ponta, o governo investirá forte em laboratórios. Em Pedro Leopoldo (MG), será aberta a quarta unidade do mundo de biossegurança máxima. Com R$ 15 milhões em recursos, o laboratório terá equipamentos de precisão exigidos por Europa e EUA para testes de aftosa, análise de resíduos e microbiologia. Em Campinas, R$ 5,6 milhões vão melhorar testes de gripe aviária e newcastle. Porto Alegre terá R$ 8 milhões para aperfeiçoar o controle da qualidade de vacinas. Belém, Recife e Goiânia também terão recursos.