Título: BC perde briga e dólar mergulha
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 24/01/2006, Finanças, p. C2
O dólar caiu ontem 0,87%, para R$ 2,2580. Nos dois últimos pregões, como efeito da decisão do Banco Central de reduzir pela metade suas compras de moeda no mercado futuro, o dólar tombou 3%. Está claro para os analistas que o BC está perdendo a queda-de-braço travada mais intensamente com os especuladores "vendidos" em dólar desde outubro. De lá para cá, comprou no mercado à vista diretamente dos bancos cerca de US$ 13,5 bilhões e adquiriu US$ 17,53 bilhões no futuro por meio da venda de 327 mil contratos de swap reverso. Por causa das pesadas intervenções o dólar subiu de R$ 2,23 em outubro para R$ 2,3250 no encerramento de 2005, sem que, porém, tivessem sido diminuídas as posições "vendidas" em dólar assumidas por investidores estrangeiros na BM&F. Pelo contrário, passaram de US$ 3,5 bilhões no começo de 2005 para US$ 8,4 bilhões em dezembro. O BC zerou toda exposição interna ao dólar e na semana que vem irá cancelar o passivo externo. Isso melhora fundamentos e reduz vulnerabilidade, tornando mais lucrativas as arbitragens. Resultado: a posição "vendida" de estrangeiro mais recente já alcança US$ 10,2 bilhões. De outubro para cá, os especuladores fingiram acreditar que as tentativas do BC de evitar a desvalorização do dólar seriam permanentes. Mas todos sabiam que o elevado custo fiscal imporia limites estritos. Em algum momento, ele iria colocar o pé no freio. Não deu outra. Está chovendo dólar, tanto que ontem o BC foi obrigado a ampliar as compras à vista como forma de compensar a redução dos swaps reversos. Aceitou 15 propostas no leilão das 15h45. Os "vendidos" continuarão expandindo suas posições enquanto persistir farta a liquidez internacional e enquanto os juros brasileiros forem inigualáveis. Não há nenhuma ameaça a esses dois fatores no horizonte de médio prazo. Como o BC está frágil e em sinuca - não pode voltar a comprar vigorosamente por causa do dano fiscal e não quer desapertar mais a política monetária sob pena de não cumprir a meta de inflação -, o dólar irá buscar primeiro os R$ 2,15 e, depois, os R$ 2,00. O risco-país sanciona e nutre o movimento: caiu ontem 1,07%, para 277 pontos-base, o menor da série histórica.
Em dois dias, moeda acumula baixa de 3%
O mercado monetário sabe que a projeção de IPCA para este ano feita pelo boletim Focus subiu de 4,58% para 4,61% unicamente por causa do índices mais pressionados relativos a janeiro e fevereiro. Mesmo assim, não cansa de pintar um cenário sombrio. O contrato mais negociado no pregão de DI futuro da BM&F, para a virada do ano, subiu ontem de 15,84% para 15,89%.