Título: Discurso na mão e candidatura voando
Autor: Rosângela Bittar
Fonte: Valor Econômico, 28/12/2005, Política, p. A4
À falta de um projeto de país, que já não tinha em 2002 e não começou a construir para sua candidatura à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu, e determinou a seus auxiliares que saiam por aí falando disso, um modelo de argumentação que pretende desenvolver nos palanques de 2006 que leva em conta estatísticas. O governo elegeu uns indicadores sobre áreas em que acredita estar indo bem, fez umas contas e associações, e decidiu que o melhor é explorar a comparação desses resultados com os do governo Fernando Henrique Cardoso. Lula designou o ministro Ciro Gomes para, a partir da última reunião ministerial do ano, ser o porta-voz da idéia de que alguns indicadores Lula são melhores que alguns indicadores FH. Foi esta a essência do que o ministro transmitiu como resultado do encontro anual do presidente com seus ministros. O tema, tão inusitado como fundamento de uma candidatura sem projeto de governo, e o tom de discurso eleitoral, uma constante desse ministro, fez com que a estratégia do governo parecesse estranha para a ocasião. Poder-se-ia imaginar que a escolha do tema de campanha estivesse relacionada à certeza que tem o presidente de que seu principal adversário será do PSDB. Conjectura-se, ainda, que como os dois governadores e um prefeito potenciais candidatos do partido possuem bons números no seu desempenho administrativo, melhor seria comparar-se com o governo federal anterior. Diz-se que as soluções para a área de segurança do governo Geraldo Alckmin, por exemplo, já vêm recebendo citações de economistas em análises sobre melhoria das condições para investimentos. É possível que não seja nada disto, e o destaque a esses indicadores como tema de campanha pode ter sido algo absolutamente aleatório. Quando ainda se tentava entender esta primeira parte da estratégia, duas autoridades de alto prestígio junto ao Presidente da República, com livre trânsito no Planalto, decidiram, publicamente, sem razão aparente, apontar o adversário ideal de Lula na campanha da reeleição. Primeiro, a definição do discurso, as estatísticas. Depois, a escalação do adversário, Fernando Henrique Cardoso. O presidente da Câmara, ex-ministro da Articulação Política e frequente interlocutor do presidente, Aldo Rebelo incluiu a novidade em sua entrevista de fim de ano. Disse que seu preferido para disputar as eleições com Lula é o próprio Fernando Henrique. Desta forma, o governo casou o discurso já definido com o candidato que quer por adversário na disputa, dando um certo sentido aos acordes de dezembro de sua sinfonia eleitoral. "Seria a disputa do século, entre o principal líder das forças que estão no governo e o principal líder da oposição". O presidente da Câmara ainda acrescentou explicações, mostrando como seria adequado poder comparar as duas administrações. Aldo não teria escalado o candidato da oposição a disputar com Lula a Presidência em 2006 se não fosse uma estratégia eleitoral do próprio presidente, combinada com seus assessores políticos. Há muito tempo o governo vem tentando chamar Fernando Henrique para o embate direto, mas como não divide seus planos com todos os aliados, quando o ex-presidente bota a cabeça de fora e faz seus comentários, sempre aparece um petista, de segundo e até de terceiro escalão, para insultá-lo, perdendo-se o lançamento do balão de ensaio. Desta vez, o governo parece mais organizado nesse quesito.
Governo escala adversário para 2006
Luiz Dulci, Secretário Geral da Presidência da República, participante da reunião diária de coordenação política, entrou também no assunto logo após a proposta de Aldo. Em entrevista de fim de ano, convidado a apontar o adversário ideal para disputar com Lula, disse que Fernando Henrique seria o melhor nome. Segundo Dulci, seria um "passeio" para Lula. Seria fácil comparar os dois governos na campanha. A não ser pelo número de bolsas-família, estatística que no governo Fernando Henrique estava fragmentada em vários programas que foram juntados neste governo, não são evidentes os sinais desta supremacia de três anos de PT sobre oito anos de PSDB, mas, para quem ainda não tem projeto de governo a apresentar, estas estatísticas podem fazer algum efeito de marqueting. Existem, porém, outras razões não mencionadas por estes assessores políticos do presidente para esta obsessiva opção. O governo teme a candidatura José Serra, que se tornou mais conhecido na última disputa e estaria fazendo uma administração em São Paulo que melhorou sua avaliação em pesquisas, mas tem esperança de que não abandone a prefeitura para candidatar-se à Presidência. Geraldo Alckmin, na análise do grupo político do Planalto, é pouco conhecido. Embora tenha margem para crescer e baixa rejeição, dificilmente seria um candidato à altura de Lula até a eleição. São, também, essas pesquisas sob avaliação do governo, que justificam a escolha do tema e do candidato adversário ideal. Fernando Henrique seria o único que não tem como crescer. "Depois de toda a crise, ele não subiu nenhum ponto nas pesquisas", diz um dos novos formuladores políticos do presidente. Por isto, Lula o quer na disputa. Se não combinar com os tucanos, vai continuar querendo.
Descobrimento
Uma revelação de 2005, ao mundo político de Brasília, foram as entranhas das prefeituras do PT país afora, especialmente aquelas consideradas principais no interior de São Paulo. Pelo perfil e conteúdo dos personagens que desfilaram nas Comissões Parlamentares de Inquérito do Congresso, dá para se imaginar o nível das equipes instaladas por Celso Daniel, em Santo André, e por Antonio Palocci, em Ribeirão Preto.