Título: Brito consolida domínio do Brasil na InBev
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 28/12/2005, Empresas &, p. B4

Bebidas Nomeação do executivo carioca, para analistas, indica opção por redução de custos e geração rápida de lucro

A nomeação do carioca Carlos Brito, que comanda a zona americana da cervejaria InBev e a canadense Labbat, para a presidência mundial da InBev vai consolidar o domínio da gestão brasileira na maior cervejaria do planeta. A avaliação era feita ontem por analistas financeiros e comentaristas de jornais belgas. "É a tomada de controle da Inbev pelos brasileiros, concentrados na redução de custo e no lucro mais rápido", disse Marc Leemans, analista do Bank Degroof, em Amsterdã, que acompanha há anos a empresa. "Os brasileiros estão cada vez mais potentes e conduzem a dança", afirmou Jean Francois Munster, do jornal "Le Soir", da capital belga. Confrontado com observações dessa natureza, o presidente do conselho de administração do gigante da cerveja, o americano Pierre Jean Everaert, qualificou a chegada de Brito como "um vento novo que sopra do Brasil e vai ser bem recebido na Europa e na Ásia". Para passar de "maior" a "melhor" cervejaria do mundo, Everaert diz que a margem operacional terá que ser de 30% até 2007. Indagados sobre qual afinal a diferença entre os estilos brasileiro e belga, alguns analistas tiveram a mesma reação, como se fosse óbvio: "Você já esteve na Bélgica?". Um analista suíço, que prefere não ter o nome publicado, diz que os belgas "não são muito ativos, não incentivam as pessoas, enquanto os brasileiros colocam pressão, estão em busca do dinheiro". Na mesma linha, Sebastiaan Schreijen, do Bank Fortis, de Bruxelas, aposta que a "transferência de expertise, a cultura de gestão" do Brasil na InBev vai ampliar os lucros. Para o comentarista Munster, porém, isso é visto com precaução e mesmo temor na Bélgica. "Os brasileiros são eficazes, mas às vezes brutais com os cortes de despesas", disse, mencionando o fechamento de fábricas no Canadá, Inglaterra e na própria Bélgica. Munster descreveu no jornal "Le Soir" como a situação mudou: no papel, foi a belga Interbrew que há um ano engoliu a brasileira AmBev, tornando-se a maior cervejaria do planeta, em termos de volume. Mas, agora, quem está dando o ritmo é a companhia brasileira. Ele diz que mais e mais pessoas dentro e fora do grupo indagam se o poder está em Louvain (Bélgica) ou em São Paulo. A nomeação de Brito é o auge de um processo que vem cortando a cabeça de executivos belgas. O belga Frédéric de Radigues, que comanda a InBev na Bélgica, por exemplo, será substituído a partir de janeiro por Miguel Patricio. Considerado o braço direito de Brito, Patricio assumirá as operações no mercado belga e em Luxemburgo. Outro executivo procedente da AmBev, Juan Vergara, assumiu o controle de custos de produção e sinergias, no lugar do belga André Wecker. Gauthier de Biolley, que era vice-presidente e só prestava contas a John Brock (presidente mundial que será substituído por Brito), foi degradado e será substituído pelo americano Simon Thrope, atual diretor da InBev nos Estados Unidos. Este vai reportar-se ao brasileiro Felipe Dutra, diretor financeiro do grupo. A desgraça dos belgas, como escreve Munster, vem desde julho, quando Patriche Thys, que era o chefe da Inbev na zona Ásia-Pacífico, foi substituído pelo americano Brent Willis. No comitê executivo, há cinco brasileiros, três belgas, três americanos e outros três europeus. Já no conselho de administração, o poder continua dividido em partes iguais entre belgas e brasileiros. Para Everaert, que fica na presidência do conselho de administração só até abril, "não importa o passaporte" de Brito. Mas, fazer o que é melhor para acelerar os lucros. A mudança de estratégia comercial que ele espera na Europa é clara: mais venda direta ao invés de só passar por grandes redes de distribuição nos principais mercados do grupo. Mas Everaert recusa-se a falar em '"estilo brasileiro". Insiste que está sendo criado o "estilo Inbev". Para Philip Galois, do jornal "Libre Belgique", porém, a passagem de poder a um brasileiro, com o estilo agressivo de gestão, causa enormes temores aos sindicatos. Além disso, a possibilidade de transferência da sede social do grupo continua a provocar enormes reações no mundo político belga. A resposta da diretoria é de que o grupo tornou-se uma multinacional, atuando em 34 países, e que vai tentar "otimizar" sua situação fiscal. Com Brito no comando, isso pode ser acelerado, temem alguns belgas.