Título: BC não compra dólar e preço desaba
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 28/12/2005, Finanças, p. C2

Por sua inesperada ausência do mercado à vista de câmbio, o Banco Central provocou ontem à tarde forte volatilidade no preço do dólar. O BC surpreendeu as instituições ao não realizar ontem o costumeiro leilão de compra de dólares das 15h45. Ele vinha efetuando a operação ininterruptamente desde o dia 3 de outubro. De lá para cá, adquiriu cerca de US$ 12 bilhões. E ontem não fez nada no spot. O foco foi apenas o mercado futuro. De manhã vendeu 7,9 mil dos 8,4 mil contratos de swap cambial reverso oferecidos, retirando US$ 376,5 milhões. Essa compra a futuro fez o dólar subir à vista para até R$ 2,3660, valorização de 1,24%. A cotação se mantinha à tarde porque as instituições esperavam o leilão de compra do BC para repassar a ele moeda a preço mais elevado. Como não apareceu, os bancos foram forçados a vender o estoque no próprio mercado. E, meia hora antes do fechamento, a moeda despencou. Foi cotada por até R$ 2,3310, baixa de 0,26% em relação ao fechamento da véspera, mas com oscilação intraday de 1,5%. No encerramento do dia, o dólar foi cotado a R$ 2,3390, com leve alta de 0,08%. No antepenúltimo pregão de câmbio de 2005, a liquidez minguou ontem. Foi essa a explicação encontrada pelos operadores para a interrupção pelo BC do processo de compra. A justificativa pode ser técnica mas, independente do trânsito de moeda, a ausência inverte o sinal de alta oficial. Sem o BC, a tendência natural, com ou sem liquidez à vista, é de o dólar mergulhar. Apenas as operações vendidas sustentadas no mercado futuro da BM&F já conseguem tirar o chão do dólar. Na segunda-feira, instituições estrangeiras mantinham na BM&F posições vendidas de US$ 8,19 bilhões.

Oferta de swaps reversos é ampliada

Solitariamente, o leilão do meio-dia de swaps reversos talvez não seja suficiente para impedir trajetória de queda do dólar. Era a dobradinha complementar formada pelos swaps futuros e os leilões diretos à vista que vinha assegurando a rota de alta. O BC ampliou em cem contratos a oferta de swaps reversos de hoje. Ao invés de 8,4 mil, se propõe a vender 8,5 mil contratos, o que pode ser indício de que, também hoje, não pretende comprar à vista. Mesmo assim haverá grande aposta em torno do seu retorno ou não ao segmento à vista. A hipótese do abandono completo do câmbio reintroduz a perspectiva do dólar a R$ 2,15. Os principais fatores de apreciação do real persistem todos presentes: elevadíssimo juro real interno, ótimas perspectivas para o superávit comercial de 2006 e farta liquidez internacional nos próximos meses. O mercado de juros, depois da ata dúbia do último Copom, desistiu de prever os próximos lances de política monetária. O pregão de DI futuro da BM&F só sabe que a Selic deve fechar 2006 muito perto de 15%, talvez um pouco abaixo disso. Mas não sabe como o BC chegará até lá. Pode ser tanto por meio de queda monotônica da Selic de meio ponto em cada uma das oito reuniões do Copom agendadas para 2006 ou por reduções de 0,75 ponto com intervalos. O swap de 360 dias se manteve ontem em 16,35%. E os juros até a virada de 2006 pouco oscilaram na BM&F.