Título: Sob ameaça de "acordão", Conselho adia cassação
Autor: Thiago Vitale Jayme
Fonte: Valor Econômico, 26/01/2006, Política, p. A6

O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados foi palco ontem da sessão mais conturbada desde o início da crise política. Os deputados começaram a analisar o pedido de cassação do deputado Roberto Brant (PFL-MG) em meio a suspeitas de acordos entre partidos para salvar mandatos e à ameaça de renúncia de parlamentares. Brant é acusado de receber R$ 102 mil do valerioduto para financiar sua campanha. O relator do processo, deputado Nelson Trad (PMDB-MS), iniciou os trabalhos, afirmando ter recebido ligação do deputado Pedro Canedo (PP-GO). Aos prantos, o parlamentar goiano teria dito que estava impossibilitado de participar da sessão por causa de forte pressão feita pela cúpula de seu partido. Irritado, Trad pediu a suspensão da reunião. Pela manhã, o presidente do PP, deputado Pedro Corrêa (PE), segundo Canedo, ligou para ele e lhe perguntou como votaria. Ao ouvir de Canedo que o voto seria pela cassação, Corrêa o pressionou para mudar de posição. Outros caciques do partido teriam feito o mesmo. A bancada do PP se reuniu e decidiu pela absolvição de Brant. O motivo seria um acordo do partido com o PFL para livrar os quatro deputados das duas siglas acusados de participar do mensalão. "É acordo. Foi deflagrado pelo Canedo", confirmou um deputado do PP. Sem conseguir convencer Canedo, a direção do partido resolveu substituí-lo por Celso Russomano (PP-SP). O paulista acabou sendo demovido por Júlio Delgado (PSB-MG) da idéia de substituir Canedo. "A pressão veio do Corrêa", acusou Canedo. O presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar, suspendeu a sessão e convocou novo encontro para 15h. Na volta, enquadrado pelo PP, Canedo mudou a própria versão e afirmou não ter sofrido pressão. "Quer dizer, então, que o conselho foi vítima de um trote?", indagou Edmar Moreira (PFL-MG). A votação do caso Brant acabou interrompida quando o placar estava em 6 a 5 pela cassação. Ainda faltam os votos de Canedo e dos tucanos Bosco Costa (SE) e Gustavo Fruet (PR). Fruet, integrante da CPI e um dos responsáveis por colocar Brant na lista dos "mensaleiros", deixou a reunião antes do fim na tarde, provocando protestos. "Os deputados que eram da CPI têm maior responsabilidade sobre os representados. Não podem se ausentar", criticou Delgado. O líder do PSDB, Alberto Goldman (SP), descartou a chance de um acordo. Disse que Fruet poderá renunciar à vaga no Conselho por ser da CPI. "Fica uma situação difícil", reconheceu.