Título: Eleição palestina reforça o Hamas
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Fonte: Valor Econômico, 25/01/2006, Internacional, p. A7
Cada tentativa de conter o Hamas resultou no efeito oposto. Quando os palestinos elegerem um Parlamento hoje, pela primeira vez em uma década, estima-se que oferecerão ao movimento islâmico uma boa proporção das cadeiras, num retumbante voto de protesto contra os fracassos da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e de seu partido no poder, o Fatah, e contra Israel. Segundo uma pesquisa de opinião pública da semana passada, o Partido da Mudança e da Reforma - que abrigou os candidatos do Hamas às 132 cadeiras no conselho legislativo - deverá receber 30% do voto nacional, contra os 35% do Fatah, na mais estreita margem registrada até agora. Esta parece ser a resposta dos eleitores às disputas internas do Fatah em torno das candidaturas, que produziram um racha no partido em dezembro e cujo desfecho foi um compromisso desordenado acertado entre as facções rivais: uma lista elaborada para acalmar o maior número possível de egos rivais, em vez de atrair o maior número possível de eleitores. Além disso, a pesquisa pode estar subestimando a força do Hamas, já que só metade dos assentos será escolhida por representação proporcional. A outra metade será disputada em eleições distritais, onde o Hamas primou mais do que o Fatah na escolha dos seus candidatos, e onde alguns exilados descontentes do Fatah fazem campanha como independentes, fragmentando o voto do partido. Uma pesquisa anterior colocou os dois partidos em pé de igualdade na disputa distrital. Mesmo que não se espere que o Hamas conquiste mais cadeiras, o voto do Fatah no Parlamento pode se dividir, dando vantagem ao Hamas. Grande parte da culpa pode ser atribuída ao presidente da ANP e líder do Fatah, Mahmoud Abbas. Ele aparenta ter as intenções certas, porém sua falta de capacidade de controlar a crônica divisão do Fatah em facções o desgraçou. A ANP não conseguiu oferecer o que mais importa para os palestinos, segundo as pesquisas de opinião: lei e ordem internas. A faixa de Gaza tem sido palco de uma confusão de lutas de clãs, seqüestros e ajustes de contes desde que os israelenses a desocuparam. Suspeita-se que parte da violência seja obra de líderes graduados do Fatah tentando enfraquecer Abbas ou uns aos outros. Além de fazer as pessoas comuns se sentirem inseguras, um de seus efeitos tem sido o de maltratar os seus bolsos. Um "Acordo sobre Movimento e Acesso" firmado entre Israel e a ANP em novembro, que deveria ter facilitado dramaticamente o tráfego de trabalhadores e mercadorias dentro dos territórios ocupados e também através das suas fronteiras, já está muito fora do prazo. Incidentes como a violenta tomada do posto de fronteira de Rafa na faixa de Gaza nesse mês pela polícia palestina forneceu argumentos para Israel postergar a suspensão das restrições. Gaza sente-se não menos pobre do que foi antes de os israelenses partirem. Agora está mais difícil culpar outros além da ANP, que enfrenta uma crise fiscal de sua única e exclusiva autoria. O que torna o poder de atração do Hamas tão grande é que ele não se respalda apenas no seu desempenho passado - com programas sociais, liderando a violência da intifada contra Israel e ostentando uma reputação de honestidade -, mas numa campanha engenhosa, voltada para o futuro. Ela ressalta temas domésticos: educação, previdência, lei e ordem. As questões mais espinhosas, sobre se a organização manterá a sua fase de calmaria nos atentados contra Israel, declarada no ano passado, e sobre qual postura poderá assumir em possíveis conversações de paz pairam ao fundo. (Seu manifesto não faz nenhuma menção à destruição de Israel, exigida na carta-régia do Hamas). Uma grande incógnita é como os resultados eleitorais serão recebidos. Uma das preocupações é que combatentes do Fatah possam sabotar ou contestar o resultado, especialmente se parecer que o Hamas está apresentando desempenho bom demais. A não-aceitação do resultado caracterizaria o colapso da autoridade de Abbas.