Título: Vale anuncia plano de incorporação das ações PN da controlada Caemi
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 25/01/2006, Empresas &, p. B1

Mineração Segundo informações, operação trará ganhos de US$ 100 milhões com sinergias

A Vale do Rio Doce deu ontem o primeiro passo para fechar o capital da sua controlada Caemi. Em comunicado, anunciou que irá incorporar todas as ações da empresa em circulação, correspondentes a 40% do capital societário. Para consolidar esta operação, a Vale vai fazer aumento de capital, convertido em ações de sua titularidade, em valor de cerca de US$ 2,5 bilhões, que serão trocadas pelas ações PN da Caemi. A transação, que será submetida amanhã ao conselho da Vale e ao da Caemi e a assembléias de acionistas de ambas as companhias em 60 dias, deverá estar concluída até abril. Com isso, está aberto o caminho para o fechamento de capital da Caemi ainda neste primeiro semestre, garantindo sinergias de US$ 100 milhões à Vale. Na nova estrutura, a holding Caemi desaparece e as suas controladas MBR, de minério de ferro e Cadam, de caulim, se transformam em subsidiárias, apurou o Valor. O presidente da Vale, Roger Agnelli, defendeu ontem em Brasília a incorporaçaõ da Caemi, alegando que a empresa é totalmente ligada ao principal negócio da Vale, o de minério de ferro. Segundo, Agnelli, a Vale estava aguardando a definição do processo no Cade (órgão antitruste) para definir os rumos da Caemi. "Como ficou tudo definido, o melhor momento é agora, começo do ano", disse. No processo de incorporação, os minoritários receberão 0,04115 ações PNA da Vale para cada ação preferencial da Caemi. A relação de troca foi calculada com base nos preços médios das ações da Vale e da Caemi nos últimos 90 dias (R$ 85,62 para a Vale e R$ 3,52 para a Caemi), o que pressupõe desconto zero para as partes. O anúncio dividiu analistas do mercado. Uns, como Adriano Blanaru, da corretora Link e Andres Perez, do Morgan Stanley, consideram em seus relatórios que os minoritários da Caemi poderão ficar "desconfortáveis" com a ausência de prêmio na incorporação, considerando que as ações da Caemi são mais atrativas que as da Vale. Nos últimos doze meses, os papeís da Caemi acumularam alta de 60% ante 40,1% dos títulos PNA da Vale. Na visão de Agnelli, os acionistas da Caemi ganharam bastante com a transação, consolidando expressivo ganho. "As ações da Vale têm tendência de valorização no mercado, isso é unânime entre todos os analistas", disse. Ele admite que há direito de retirada para os acionistas que não concordarem com a incorporação, embora não ache esta alternativa vantajosa. Sobre o prêmio aos acionistas, o executivo acredita que eles estão embutidos na própria valorização das ações da Caemi no mercado. "São duas empresas absolutamente líquidas no mercado e que fazem parte do índice Bovespa. A relação de troca tem que ser na base do mercado, não em relação ao prêmio. Nossa operação é absolutamente transparente e vem de encontro aos anseios do mercado", disse, lembrando que todos já esperavam esta incorporação. Perez, do Morgan Stanley, tem visão diferente da de Agnelli. Ele crê que os acionistas da Caemi ficarão desapontados com os termos da transação, porque muitos deles acham que a empresa valeria mais. Ele não descarta preocupações sobre a relação ao tratamento dado aos minoritários pela Vale. Por isso, prevê que a diferença entre ações ON e PN da Vale vai se alargar no curto prazo, o que não é visto como um bom sinal nessa relação. O desconto entre elas é de 13% hoje. José Alberto Baltieri, da Fator Corretora, calcula que pelas cotações de fechamento de ontem, na Bovespa, a relação de troca indica que o valor a ser recebido pelos acionistas da Caemi corresponde a R$ 3,82, próximo do preço de fechamento de R$ 3,84. Para ele, no curto prazo os minoritários poderão achar que estão perdendo com a transação, mas ao migrarem para um ativo de classe mundial, mais líquido, com maiores perspectivas de expansão e maior potencial de valorização, vão concluir que fizeram um bom negócio. Andréa Weinberg, analista da Merrill Lynch, em relatório sobre a proposta, o negócio é bom para a Vale, mas decepcionante para os minoritários da Caemi. Segundo ela, o valor corrente das ações da Caemi não refletem as potenciais sinergias. A aprovação dos minoritários não é necessária, mas há o risco deles não concordarem e retardar o fechamento da transação. Segundo ela, Vale poderia ter pago um prêmio de pelo menos 10% , o que corresponderia a US$ 250 milhões. Isso evitaria problemas da empresa no relacionamento com os donos de PNs da Caemi. Desde a aquisição das ações preferenciais e ordinárias da Caemi em poder da trading japonesa Mitsui, em 2003, a Vale pensava em incorporar a Caemi. Na época, segundo analistas, teria gasto pouco mais de US$ 200 milhões na aquisição dos papéis dos minoritários. Agora, caso fizesse oferta pública, teria que pagar no mínimo US$ 2,5 bilhões, pois o valor de mercado da Caemi é de US$ 6,7 bilhões. Até agora, somada a compra dos 50% das ações ordinárias da Caemi em poder dos irmãos Frering, netos do fundador, mais a parte da Mitsui, a Vale já desembolsou mais de US$ 800 milhões no negócio Caemi. (Colaborou Paulo de Tarso Lyra, de Brasília)