Título: Questão institucional coloca em xeque partidos
Autor: Raymundo Costa, Maria Lúcia Delgado e Cristiano Ro
Fonte: Valor Econômico, 02/01/2006, Política, p. A4

A relação do PT com os movimentos sociais, na opinião de Cristovam Buarque, não o torna um partido de esquerda. Este tem sido um dos argumentos utilizados veladamente pelos petistas para defender sua manutenção no poder. "Há muitos movimentos sociais ligados à direita e aparelhados pelos partidos. O PT, por exemplo, aparelhou vários movimentos para manter as massas sem mobilização", acusa o senador. Na opinião de Paulo Delgado, o PT sempre cometeu o equívoco de não aceitar as instituições. Trata-se de um ranço que acompanhou as esquerdas em todo o mundo até a queda do Muro de Berlim. "A idéia da ruptura foi a marca da esquerda até a queda do Muro. Depois, a idéia mais forte é a da continuidade", explica. "Esse caminho da desinstitucionalização serviu para o PT crescer e para virar um grande partido de oposição, mas não serviu para governar. Na medida em que a esquerda não aceita a rotina, embora seja hoje beneficiária dela - a idéia da estabilidade econômica é um elemento central da estabilidade do nosso governo -, ela se distancia do horizonte cotidiano do povo." A escola do PT, diz Delgado, foi o "partidão" (PCB, hoje PPS), mas sem integração com o processo social brasileiro. "O PT se afirmava pela desinstitucionalização. Por isso, o P-SOL e PSTU também deverão ter vida curta porque a História não se repete. Eles estão seguindo o mesmo caminho", critica. Roberto Freire concorda. Diz que os integrantes do P-SOL são muito respeitados e talvez tenham sido as maiores vítimas da "fraude petista". "O problema é que o P-SOL tem, como sua concepção, o PT oposicionista, o PT lá de atrás. A idéia não é de superação do PT, de seus equívocos." A senadora Heloísa Helena se define como "socialista de carteirinha" e justifica: "O P-SOL surgiu a partir do momento em que o maior partido de esquerda da América Latina se transformou em ferramenta da propaganda triunfalista neoliberal". Assim como Buarque, ela também coloca PT e PSDB no mesmo bloco: são partidos que, sob o abrigo da social-democracia, defendem concepções programáticas neoliberais. Para Heloísa, o PT teria o direito de defender um projeto neoliberal, mas desde que tornasse pública essa opção. "Não sei quantos nem quais serão os candidatos à Presidência em 2006. O P-SOL não fingirá estar estarrecido diante do falso dilema neoliberal do governo passado e do atual", avisa ela. Na esquerda imaginada pela senadora alagoana, cabem apenas o P-SOL, o PSTU e o PCO. O PDT, segundo ela, ainda é uma incógnita. "O PDT defende teses progressistas importantes, mas não sei se reivindicarão fazer parte desse campo democrático popular", afirma. Freire diz que conversa com o PDT, o PV e o PHS, partidos que, em sua opinião, estão no "campo democrático de esquerda". "Estamos buscando aquilo que é fundamental para uma esquerda, que é uma nova ordem econômica e social. É isso o que vai nos caracterizar. É a crítica básica que se tem que fazer a este governo, que, sob esse ponto de vista, é neoliberal, conservador, de direita, aliado ao que tem de mais espoliador hoje no mundo, que é o sistema financeiro. Do ponto de vista social, não mudou coisa alguma. Suas políticas compensatórias são muito mais para perpetuar a miséria do que para transformar a realidade", diz o deputado. (RC, MLD e CR)