Título: Expectativa de alta para as commodities
Autor: Mônica Scaramuzzo e Fernando Lopes
Fonte: Valor Econômico, 02/01/2006, Agronegócios, p. B8
Mercado Em Chicago, grãos dependerão do clima; em NY, quadro de oferta e demanda indica cotações firmes
As cotações das principais commodities agrícolas transacionadas pelo Brasil no exterior deverão permanecer firmes ou mesmo subir ao longo deste ano. Para os grãos negociados na bolsa de Chicago (soja, milho e trigo), fatores como clima nas Américas do Sul e do Norte e plantio nos Estados Unidos, ainda indefinidos, terão grande peso na formação dos preços, mas há sinais que indicam mercados sustentados. Para os produtos que têm na bolsa de Nova York sua principal referência (açúcar, café, cacau, suco de laranja e algodão), o quadro de oferta e demanda sugere valorizações. "No mercado de soja [principal cultura agrícola produzida e exportada pelo país], os preços deverão seguir sua lógica histórica: ou seja, serão mais baixos no primeiro semestre e melhores no segundo. Mas os sinais de estiagem no Sul do Brasil poderão oferecer melhor sustentação também no início do ano [como já aconteceu em dezembro]", diz Renato Sayeg, da Tetras Corretora. Fontes ligadas às indústrias processadoras lembram, porém, que os estoques globais do grão seguem elevados e que as previsões atuais ainda sinalizam safras recordes no Brasil e Argentina. Em contrapartida, a soja poderá perder espaço para o milho na safra 2006/07, que começará a ser plantada no segundo trimestre. Em 2005, os gordos estoques mundiais mantiveram as cotações da soja sob pressão durante boa parte do ano. Segundo cálculo do Valor Data baseado nas médias anuais dos contratos de segunda posição de entrega, houve baixa de 16,41% em relação a 2004. "Não é o fundo do poço, mas é um patamar baixo", diz Antonio Sartori, da Brasoja. Seneri Paludo, da Agência Rural, lembra que não são apenas os estoques dos Estados Unidos que estão altos. Com o câmbio desfavorável às exportações, os estoques brasileiros também inflaram. No caso do milho, Paulo Molinari, da Safras&Mercado, espera cotações mais firmes no primeiro semestre. Os estoques globais do grão também estão elevados - nos EUA, encontram-se no mais alto nível desde a década de 80 -, mas, por outro lado, a demanda está aquecida por conta da febre americana por etanol, provocada pelo petróleo caro. "O etanol não é um fator novo, mas de fato seu peso cresceu", afirma o analista. Em 2005, a cotação média do grão foi 15,5% menor que no ano anterior. Já a expectativa de pouca oferta de trigo de boa qualidade tende a sustentar os preços da commodity em 2006, conforme Aldo Lobo, também da Safras. No ano passado, a cotação média foi 6,91% menor que a registrada em 2004, sempre de acordo com o Valor Data. Como aconteceu em 2005, as maiores alegrias para os exportadores brasileiros de commodities agrícolas deverão vir de Nova York. O açúcar, que entre as commodities pesquisadas registrou grande salto em seu preço médio no ano passado - 31,51% -, a boa demanda por álcool seguirá oferecendo sustentação, e a perspectiva de queda da oferta de países como Tailândia, Paquistão e China é outro fator que corrobora a expectativa de novas valorizações, de acordo com Michael McDougall, diretor da Fimat Futures para a América Latina. Ele não descarta, entretanto, um pequeno ajuste para baixo neste início de ano. Outro produto que vive fase de redução da oferta e aumento da demanda é o suco de laranja. Ademerval Garcia, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus), lembra que a passagem de furacões pelos pomares de laranja da Flórida reduziu a produção e os estoques de suco nos EUA e, por tabela, também no Brasil. É de se esperar, portanto, um ciclo mais longo de cotações firmes. Em 2005, a alta do preço médio chegou a 44,73%. Para o café, que disparou em 2005 e encerrou o ano com preço médio 40,51% maior que em 2004, o cenário é igualmente otimista. "As cotações poderão até mudar novamente de patamar", afirma Rodrigo Corrêa Costa, operador da Fimat. No fim de 2004, os preços subiram um degrau, portanto a baixa no segundo semestre de 2005 não pode ser considerada uma má notícia. Segundo Costa, o mercado já "assimilou" o tamanho da nova safra brasileira, que será maior em 2006/07, e está de olho na colheita de 2007, que deve ser menor por conta do ciclo de produtividade baixa do café. Alexandre Mourani, da Ágora Senior, diz que também sustentarão as cotações a redução dos estoques mundiais. Também para o algodão a expectativa é que as cotações fiquem firmes, sobretudo com as notícias de que China e outros produtores, entre eles Brasil, Paquistão e Usbequistão, produzirão menos. "A supersafra americana em 2005 pressionou as cotações, o que desestimulou o plantio em outros países", disse Miguel Biegai, da Safras&Mercado. "Mas houve um repique de preços no segundo semestre por causa dos furacões nos EUA e do terremoto no Paquistão", ressalvou. No fim, o preço médio recuou 6,78% em relação a 2004. Para o cacau, finalmente, a previsão de déficit mundial em torno de 100 mil toneladas sinaliza alta de preços. "A produção mundial deverá ficar abaixo do consumo", afirma Thomas Hartmann, da TH Consultoria. "No ano passado os preços internacionais do cacau oscilaram entre US$ 1.350 e US$ 1.500 a tonelada. A previsão é de preços mais firmes". No ano, o preço médio caiu 0,91% sobre 2004.