Título: Preço de commodities pode afetar rodada
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 19/11/2004, Brasil, p. A-5

A queda dos preços agrícolas poderá dificultar as negociações da Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC). Com as cotações das commodities em queda, ficará mais complicado para os Estados Unidos reduzirem os subsídios aos seus agricultores. A avaliação é de Marcos Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone). Para ele, caberá aos EUA fazerem as maiores concessões em apoio doméstico, já que a União Européia dá poucos sinais de ceder após a reforma de sua política agrícola comum. Jank pondera que a conclusão da Rodada Doha pode coincidir com a revisão da lei agrícola americana, que acontecerá em 2007. "A disposição para reduzir subsídios dependerá dos preços agrícolas e tudo indica que serão baixos", disse, em seminário sobre OMC organizado pela revista "Carta Capital". O presidente do Icone afirma que outros dois fatores também podem influenciar nas negociações agrícolas: a pauta do Congresso americano e as pressões orçamentárias do país. Nesse sentido, o déficit comercial americano, provocado pelos cortes de impostos promovidos pelo presidente George W. Bush, poderá evitar aumento dos subsídios agrícolas. Na avaliação da professora da Fundação Getúlio Vargas, Vera Thorstensen, "o clima mudou totalmente na OMC", desde a aprovação do framework da área agrícola em julho. Mas ela está preocupada com o andamento de outros tópicos da negociação multilateral. O Brasil tem interesse em tornar mais rígidas as regras de utilização do mecanismo de antidumping, que está sendo largamente utilizado pelos EUA. Outra discussão que preocupa a especialista é a "graduação" dos países em desenvolvimento. As nações desenvolvidas defendem que, por conta de sua agricultura pujante, o Brasil não deveria ser considerado um país em desenvolvimento. Perder essa classificação poderá significar maiores custos para o Brasil na Rodada Doha, já que os países em desenvolvimento têm tratamento especial, que permite uma desgravação mais lenta de seus produtos. Otimista, o ex-presidente do Órgão de Apelação da OMC, James Bacchus, acredita que, passadas as eleições, o governo americano terá espaço para prosseguir com as negociações da OMC.