Título: Mercado de trabalho cresce, mas vagas com baixa qualificação predominam
Autor: Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2006, Brasil, p. A3
A população ocupada no Brasil aumentou em 1,97 milhão de pessoas nos três anos do governo Lula. Com isso, a taxa média de desemprego passou de 12,3% em 2003 para 9,8% no ano passado. No entanto, o crescimento do emprego esteve ancorado em ocupações de baixa qualidade. A parcela da população ocupada em serviços domésticos, por exemplo, avançou de 7,6% para 8,2% em 2005. Em contrapartida, no setor industrial, que possui o maior percentual de formalização, a porcentagem de ocupados permaneceu praticamente estável: foi de 17,6% em 2003 para 17,7% no ano passado. "A situação do mercado de trabalho brasileiro está melhor. Mas como a qualificação dos trabalhadores ainda deixa a desejar, predominam os trabalhos com menores exigências", explica Sergio Vale, da MB Associados. Os empregos em setores que exigem mais estudo não crescem tanto. Na área de intermediação financeira e serviços prestados a empresas, a porcentagem de ocupados diminuiu de 15,8% para 15,6% nos últimos três anos. Outro dado que pode indicar a baixa qualidade dos empregos é o fato de ter crescido a porcentagem de pessoas com 11 anos ou mais de estudo desempregadas de 39,9% para 46,1% no período. Já para aqueles que têm até oito anos de estudo o desemprego ficou menor. Antes 33,2% das pessoas do grupo estavam desocupadas. Agora, são cerca de 28%. A forma de inserção dos empregados também não trouxe resultados muito animadores. Embora o número de ocupações com carteira de trabalho assinada tenha crescido em 2004 e em 2005, 29,9% dos trabalhadores ainda são informais, um número muito próximo aos 29,8% apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no primeiro ano do governo Lula. Para os trabalhadores domésticos, o cenário não melhorou: em 2003, 22,4% das pessoas que estavam nesse setor não possuíam carteira de trabalho. Em 2005, esse percentual chegou a 23,6%. Por outro lado, a pesquisa do IBGE revelou alguns resultados positivos para os trabalhadores. A quantidade de ocupados com mais de 50 anos, por exemplo, cresceu de 16,8% para 18%. Ao mesmo tempo, houve queda na participação dos jovens no mercado de trabalho, de 19,5% para 18,2%. Além disso, o tempo médio de permanência no trabalho principal aumentou 4%, e foi de 319 horas, em 2003, para 332, em 2005. O rendimento médio recebido pelos trabalhadores também mostrou crescimento de 1,2% e passou a valer R$ 972,61, contra os R$ 960,7 de 2003. O economista Marcelo de Ávila, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), lembra que a queda do desemprego ao longo dos três anos foi influenciada por uma menor entrada de pessoas à procura de trabalho ao longo de 2005. Em 2003, houve um incremento de cerca de 12% na população economicamente ativa (PEA). "Como a economia estava indo mal e a renda encolhendo, muitas pessoas foram procurar trabalho", explica. Em 2004, esse aumento foi de 2,2% e no ano passado, de apenas 1,1%, abaixo da média histórica, que oscila entre 2,5% e 3%. "Com a renda em alta e a economia mais estável, diminuiu a necessidade de membros secundários da família procurarem um emprego."