Título: Palocci vai à CPI dos Bingos, mas não convence parlamentares
Autor: Thiago Vitale Jayme e Arnaldo Galvão
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2006, Política, p. A5
Crise Depoimento de ministro levou Renan Calheiros e José Sarney pela primeira vez à CPI
Mesmo sem deixar perguntas sem resposta, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, não satisfez os senadores no depoimento de quase seis horas prestado ontem à CPI dos Bingos. "Em alguns casos, ele não foi convincente", disse o presidente da Comissão, senador Efraim Morais (PFL-PB). "Ele não convenceu sobre as denúncias relacionadas à administração em Ribeirão Preto e a relação com Vladimir Poleto. Seus amigos agiam com muita desenvoltura e usavam o nome dele", afirmou o relator da CPI, Garibaldi Alves (PMDB-RN). As principais questões deixadas em aberto pelo ministro foram as relacionadas à gestão em Ribeirão Preto, onde Rogério Buratti e Ralf Barquete foram seus secretários. Buratti confirmou que o PT recebia R$ 50 mil mensais de propina durante administração do ex-ministro. "Eu saberia se isso tivesse ocorrido", reagiu Palocci. O ministro disse que várias acusações contra ele foram arquivadas, por determinação do Supremo Tribunal Federal, por "absoluta falta de indícios" de irregularidade e por "exploração política" da parte de quem o acusou. Palocci também refutou que a campanha do presidente Lula em 2002 tenha recebido R$ 1 milhão de empresários de jogos de bingo. Apesar da cordialidade com que trataram o ministro, os senadores da CPI foram duros nas conclusões. Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), único integrante da oposição a poupá-lo de perguntas, fez críticas ao passado de Palocci: "Como ministro, ele é ótimo. Como prefeito, deixou a desejar". O líder do PFL no Senado, José Agripino Maia (RN), concentrou-se no papel de Isabel Bordini, que foi diretora do Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto (Daerp) na gestão Palocci. Ela é casada com o atual dirigente do Serpro, Donizete Rosa. Segundo Agripino, há denúncias de que as despesas com a varrição das ruas da cidade foram multiplicadas por seis na gestão de Palocci. O ministro admitiu que esse aumento ocorreu, mas assegurou que nada houve de irregular. A cidade, explicou, ficou mais limpa, quando, no passado, apenas o centro era beneficiado. O senador disse que permanecia com o direito de suspeitar dessa versão. Palocci admitiu ter sido amigo de Buratti, principalmente quando o advogado foi secretário de governo em Ribeirão Preto. Diz ter afastado o assessor por acusações, não-comprovadas, de corrupção em licitações. "Depois disso, nos afastamos. Ele veio à minha casa, em Brasília, apenas uma vez", disse Palocci. "Estou convencida de que o senhor está mentindo todo o tempo. Dizem que Vossa Excelência é amigo de Buratti e tem a confiança total dele, em todos os sentidos", insistiu a senadora Heloísa Helena (P-SOL-AL). Palocci repetiu sua versão. "Não nego minha amizade com ele, mas nos afastamos muito. Fiquei um grande período sem vê-lo. Durante o período de ministro, fui à casa dele uma vez. Ele nunca me pediu um procedimento", afiançou. A oposição insistiu no assunto. O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), de quem Palocci no depoimento disse ser "amigo", e o senador Demóstenes Torres (PFL-GO) foram irônicos ao perguntar ao ministro porque não processa o ex-assessor. Palocci se recusou a chamar o advogado de mentiroso, como sugeriram Torres e Virgílio. "Prefiro não fazer esse julgamento", afirmou. O relacionamento com Vladimir Poleto também foi questionado. Palocci reiterou desconhecer que Poleto teria atuado na suposta estratégia de trazer US$ 3 milhões de Cuba para a campanha de Lula. Poleto também é um dos acusados de ter cobrado propina nas negociações da renovação do contrato da GTech com a Caixa Econômica Federal. "Não sei de onde tiraram que ele é meu ex-assessor. Vi Poleto duas vezes na minha vida", afirmou. Sobre os dólares de Cuba, disse tratar-se de história "fantasiosa". O ministro não conseguiu explicar as mais de mil ligações telefônicas de Poleto a Ademirson Ariovaldo da Silva, seu assessor especial. "Eu mesmo procurei o Ademirson em meu gabinete. Perguntei o que eram as ligações. Ele explicou que havia um erro. Que algumas ligações não podem ter existido. Há registros de 15 ligações em menos de 30 segundos, o que é impossível", explicou. "Seu assessor lhe faz passar vergonha. Estou aqui com a lista de ligações e não há superposição de chamadas, como ele disse", reagiu o senador do PFL. E completou: "Ademirson disse que era só amigo de Poleto, mas as ligações são abundantes nos dias úteis e diminuem sensivelmente nos fins de semana. Na época dos contratos, havia triangulações de chamadas." Os governistas ficaram satisfeitos com as explicações de Palocci. O líder do governo, Aloizio Mercadante (PT-SP), comemorava a tranqüilidade do mercado. Tião Viana (PT-AC) disse que Palocci saiu "engrandecido" e, agora, é um "episódio pretérito" na CPI. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), participou do início do depoimento. Foi a primeira ida de Renan às CPIs desde o início da crise. O senador José Sarney (PMDB-AP) também apareceu pela primeira vez no plenário das comissões. Logo no início da sessão, Palocci, conforme antecipou o Valor, informou que não será candidato este ano: "Não vou deixar o ministério. Continuarei lá até quando o presidente considerar necessário. Mas o futuro a Deus pertence", afirmou.