Título: Mineradora corre por fora na venda da Brasil Ferrovias
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2006, Empresas &, p. B6

Pode se enganar quem pensa que a Companhia Vale do Rio Doce é carta fora do baralho na disputa pelos ativos da Brasil Ferrovias. Desde que foram entregues as propostas indicativas dos interessados em adquirir as estradas de ferro do grupo, há duas semanas, chamou a atenção dos demais concorrentes o fato de a mineradora não ter formalizado uma oferta. Afinal, a empresa havia alardeado o seu interesse. Mas não é bem assim. Vários fatores indicam que a empresa teria feito apenas um recuo estratégico e teria intenção de entrar no processo em etapa mais avançada. Em 2005, a Vale enfrentou grande polêmica por conta do julgamento pelos órgão de defesa da concorrência de diversas aquisições feitas no passado nos setores de minério e logística. A estratégia adotada agora visaria, avaliam fontes do governo e do setor, preservar a empresa de mais polêmica em um estágio ainda preliminar. A Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (Anut) já havia manifestado temor de que a mineradora viesse a comprar a Brasil Ferrovias, o que aumentaria significativamente sua posição no setor ferroviário. O Valor apurou que nas últimas semanas a Vale fez uma consulta informal à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para saber como seria recebida, do ponto de vista concorrencial, uma eventual participação sua no capital da Brasil Ferrovias. A resposta da agência, também informal, teria sido que a mineradora poderia ir adiante, desde que respeitasse o limite estabelecido no edital de privatização que impõe que nenhum acionista pode deter mais de 20% do capital votante da concessionária. A restrição é sujeita a exceções, definidas caso a caso pela agência. Na Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), a própria Vale foi beneficiada por uma flexibilização e pôde ficar com quase a totalidade das ações votantes. Tal decisão levou em conta que a mineradora não tem carga própria a ser transportada pela FCA e, portanto, não oferece ameaça a outros clientes da estrada. Já no caso da MRS, em que a empresa detém 35,9% das ONs, a situação é diferente, porque a mineradora tem carga própria. A ANTT ainda não deu sua decisão sobre esse caso. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica manifestou-se no sentido de limitar o poder de voto da Vale. Na Brasil Ferrovias haveria problema semelhante. Mais precisamente no corredor da Novoeste, que transporta minérios de Corumbá (MS) para a Vale. O que se avalia é que a mineradora poderá formar um consórcio mais adiante com algum grupo já pré-qualificado. "A expectativa é que a Vale possa voltar ao processo da Brasil Ferrovias mais adiante", diz um executivo ligado ao lado vendedor. Outro fator que pode ter pesado na decisão da companhia de não formalizar uma oferta agora é o seu interesse pela ferrovia Norte-Sul. Essa malha seria mais interessante estrategicamente, pois seria integrada com a ferrovia de Carajás, da Vale, e o governo mostra interesse em acelerar o programa de concessão. Na segunda-feira, foi aberto o data room do corredor de bitola larga, formado pela Ferroban e pela Ferronorte, reunidas na Nova Brasil Ferrovias. Os grupos pré-qualificados para acessar os dados foram América Latina Logística, MRS Logística, Copersucar e Bunge Fertilizantes. Esses quatro grupos fizeram proposta indicativa pelo conjunto de ativos, que inclui também o corredor de bitola estreita. A idéia é que as ofertas firmes sejam apresentadas dentro de duas semanas. Na próxima segunda, será aberto o data room da bitola estreita, ou seja, a Novoeste. Para esse ativo, os grupos interessados são ALL novamente, Ferrocarril Oriental, da Bolívia, e um grupo coreano.