Título: "País precisa de projeto de crescimento sustentável"
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2006, Empresas &, p. B6
O Brasil tem que adotar uma "obsessão por investimentos" para poder alavancar seu crescimento, afirmou ao Valor Roger Agnelli, presidente da Vale do Rio Doce. "Os níveis atuais de investimento, entre 18% e 19% do Produto Interno Bruto (PIB), não são suficientes para sustentar um crescimento no país de longo prazo. E se o governo onera novos aportes e apresenta restrições legais, ele acaba deprimindo estruturalmente esses investimentos", afirmou o executivo que comanda desde 2001 a maior mineradora de ferro do mundo. O crescimento brasileiro, frisou Agnelli, também dependerá dos músculos que serão dados aos investimentos em logística, um dos principais alvos de aplicação de recursos da Vale. "É necessário haver um fôlego de uns três anos para recuperar aportes iniciais e se estabilizar, além de começar a gerar caixa, principalmente em ferrovias". Para Agnelli, "o Brasil não pode repetir a situação dramática no setor de logística enfrentada em 2002, quando carregamentos de soja ficaram retidos por conta dos gargalos logísticos". Mesmo com esses entraves, o executivo disse que a política de investimento da companhia não será afetada. "É o custo do crescimento. Sempre vamos esbarrar em problemas desse tipo. Não será a burocracia nem questões de legislação que impedirão a Vale de crescer", afirmou. O presidente da Vale também disse não acreditar numa tendência de desvalorização do real ao longo de 2006, exceto se o Brasil for afetado por alguma crise internacional. "O comportamento do dólar deixou se ser ditado por aspectos especulativos. O país tem caixa, contas em ordem e tem condições de enfrentar ataques especulativos". Segundo o executivo da Vale, o superávit comercial brasileiro continuará forte neste ano, graças aos preços altos de algumas commodities como café, açúcar e minerais em geral. A Vale trabalha em seu orçamento deste ano com uma projeção de cotação média de dólar a R$ 2,46. Com a valorização do real, os investimentos da companhia tiveram forte encarecimento. Cerca de 70% de seus custos gerais são em moeda brasileira, enquanto 80% da receita é obtida em dólares. "Nossos fornecedores estão importando componentes e até equipamentos bem mais baratos de outros lugares, com destaque para a China", informou Agnelli. Ele mencionou que companhias como a gigante ABB, da qual faz parte do conselho, estão indo para China e instalando fábricas no país para produzir com custos competitivos. Portanto, vê com naturalidade, que empresas como o grupo Gerdau, estejam buscando essas fontes de fornecedores. A demanda mundial de minério de ferro não mostra sinais de arrefecimento, afirmou Agnelli, o que certamente dará espaço para um novo aumento de preços neste ano. "As discussões estão sendo tocadas pela área técnica. Serão levadas em consideração todos os aspectos que tiveram peso no ano passado, como a oferta apertada, a demanda aquecida, o aumento dos nossos custos. Estamos levando todos esses números à mesa", afirmou. De acordo com Agnelli, a China, maior produtor de minério e de produtos siderúrgicos do mundo, continua em ritmo acelerado de compras. Ele observou também que há uma diferença considerável entre os preços dos contratos de fornecimento de longo prazo e os praticados no mercado "spot" - que atingiram recordes de alta no fim de 2004. Entretanto, ao contrário das negociações de 2005 - quando, em meio a muita grita, a commodity foi reajustada em 71,5% - a rodada desse ano ocorre em clima pacífico, de acordo com o presidente da mineradora. Agnelli desconversa quando o assunto é o percentual de aumento para esse ano.