Título: BC troca âncora-mor presa à inflação
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2006, Finanças, p. C2
Apesar de todos os sinais de que o Banco Central reinstalou o câmbio como principal âncora antiinflação, sem abandonar por completo a monetária, os bancos ainda não se mostram muito propensos a apostar dinheiro cegamente na previsão, praticamente consensual, dos seus economistas de que o Copom irá na reunião de março promover mais um corte de 0,75 ponto na taxa Selic. Após a leitura, ontem de manhã, da ata da reunião realizada dia 18 os economistas se convenceram de que o juro cairá de 17,25% para 16,50%. Os tesoureiros das instituições, a quem cabe decidir o quanto de dinheiro se colocará nesse prognóstico, estão mais céticos. Apesar de a ata ter sido considerada "positiva" pelos departamentos técnicos, o juro negociado para a virada de março para abril - o que tem a missão de antecipar o próximo passo do Copom - ficou estável em 16,95%, ainda embutindo redução de apenas 0,50 ponto na Selic no encontro de março. O contrato mais negociado (giro de R$ 24,23 bilhões), para a virada do ano, recuou timidamente de 15,92% para 15,90%.
As cautelas dos tesoureiros parecem excessivas. Está certo que o Copom repetiu, em sua ata, a clássica advertência de que irá acompanhar a inflação "atentamente" . Confira, nas palavras do Copom: "Tendo em vista as incertezas que cercam os mecanismos de transmissão da política monetária e os riscos associados aos cenários traçados em cada momento, o Comitê avalia que será necessário acompanhar atentamente a evolução do cenário prospectivo para a inflação até a sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária". O alerta, praxe destinada a não comprometer futuras decisões, não deveria surpreender a ninguém. Mesmo porque, antes dele, o cenário traçado pela ata foi róseo: o repique inflacionário de janeiro, pontual e sazonal, não reverte o caminho em direção ao cumprimento da meta de inflação estrita de 4,5%. E a atividade, em expansão no ritmo esperado, não desequilibra as relações entre demanda e oferta. A ata foi tão otimista que não precisaria ser modificada em nada se a decisão tivesse sido de um corte de 1 ponto. Para o Bradesco, o Copom optou pela baixa de 0,75 ponto em função do menor número (de 12 para 8) de reuniões este ano. "O Copom reconhece que está em curso uma recuperação do ritmo de atividade e, por isso, esta não deve ter sido a motivação da aceleração do corte para 0,75 ponto, reforçando o argumento da mudança de calendário", diz relatório da instituição. O seu cenário é de corte de 0,75 ponto em março e mais dois cortes de 0,5 ponto nas duas reuniões seguintes, marcadas para abril e maio.
Em cinco dias, dólar anula três meses de intervenções
Para o diretor da Modal Asset, Alexandre Póvoa, o juro continuará caindo 0,75 ponto porque o BC voltou a utilizar a taxa de câmbio como linha auxiliar no combate à inflação. O economista notou que, no seu cenário básico de inflação, o Copom manteve o dólar nos mesmos R$ 2,25 em que estava na reunião de dezembro. Não trouxe a moeda para o valor de R$ 2,32 vigente no dia 18 porque já sabia que ele cairia. Como? Bastava, como o BC de fato fez, relaxar as intervenções cambiais. Ontem o dólar fechou a R$ 2,2310, em baixa de 0,75%. "A decisão mais importante do Copom (que não está escrita na ata) é na direção de um relaxamento na intervenção cambial, já que a inflação, sobretudo os IPAs, começam a incomodar. Por isto, parece que a intenção do BC é, permitindo uma leve apreciação cambial, prosseguir com os cortes de 0,75 ponto", diz Póvoa. Parte do mercado desconfia que como o BC não encontrará clima político favorável a um reaperto monetário caso a inflação fuja da meta e como não tem controle sobre os gastos públicos, a via cambial é a única que poderá trilhar sem pressões insuportáveis. Sintomaticamente, foi na noite do dia 19, um dia depois do Copom, que resolveu afrouxar as rédeas do câmbio. A oferta de swaps reversos foi reduzida pela metade e as compras à vista, além de menores, limitam-se a sancionar a cotação do momento. Do dia 20 até ontem, o dólar já tombou 4,17%. Em cinco dias o dólar anulou todo o esforço desenvolvido pelo BC entre outubro e dezembro para elevar a cotação. Nesse período, ele comprou à vista e no futuro US$ 24,05 bilhões. Para nada. O dólar iniciou outubro a R$ 2,23 e fechou 2005 a R$ 2,3250. No último dia 19 estava em R$ 2,3280 e ontem fechou a R$ 2,2310. A âncora monetária nem bem foi retirada direito e já entrou em cena a cambial. O capital externo adora juro alto e dólar baixo. Ontem foi dia de renovação de recordes nos mercados mais sensíveis à liquidez internacional: a Bovespa marcou 38.014 pontos, após alta de 1,64%, e o risco-país caiu 2,96%, para 262 pontos-base.