Título: Safra de boas notícias anima Lula
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 30/01/2006, Política, p. A8

Depois de oito meses de crise política intensa, aconteceu o que a oposição não imaginava ser possível: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embalado por bons resultados nos campos econômico, social e político, recuperou o fôlego e voltou a acreditar que é um candidato competitivo à reeleição. Na área econômica, apesar das expectativas de uma expansão ainda modesta do PIB em 2006, os juros são declinantes, o risco-país é o menor da História, a inflação e a taxa de desemprego estão em queda e a Bovespa bate recordes sucessivos. Na área social, o governo fixou o salário mínimo com maior poder de compra dos últimos 40 anos e comemora o fato de o salário médio real dos trabalhadores ter crescido 5,8% em 2005. Um petista que acompanhou Lula em viagem a São Paulo na sexta-feira disse que o presidente está "bem humorado, leve". "Ele está tranqüilo, consciente de que está colhendo o que tinha plantado." Esse mesmo petista, dias atrás na Câmara, não escondia a admiração com os resultados positivos colhidos pelo governo. "Ele (Lula) está apanhando há oito meses e consegue manter-se no páreo. Ele é, de fato, um fenômeno", espantou-se. Lula também conta, neste momento, com o beneplácito da oposição, em especial ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Embora tentasse passar uma imagem de tranqüilidade, o Planalto temia o desgaste político caso o comandante da economia não fosse bem no depoimento que deu à CPI dos Bingos, na quinta-feira. Palocci, contudo, contou com a ajuda até de quem sonha em ocupar a cadeira de Lula. "O Serra (José) me ligou, durante o depoimento, para pedir que fizesse as perguntas necessárias ao Palocci, mas sem hipérboles. Não nos interessa herdar um país quebrado", confessou o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). A mesma dose de compaixão ele não devota a Lula. "Eu venho de uma família de políticos, convivo com eleições desde criança. Não tenho nenhuma dúvida de que Lula não ganhará essa eleição. Ele não pode mais andar na rua, abertamente, já não vai a todos os lugares", sustentou o tucano. Virgílio lembra que, quando Fernando Henrique disputou a reeleição, jamais apareceu em pesquisas eleitorais com menos de 51% das intenções de voto. Acabou eleito com 54%. "Ele tem 35% e comemora? Meu Deus do céu. É um alienado", criticou. O porta-voz do presidente, André Singer, ecoa discurso adotado pelo próprio Lula: os resultados de agora são frutos das ações tomadas nos últimos três anos. "Os resultados positivos obtidos pelo governo desde o fim do ano passado são fruto de um trabalho árduo e responsável, desenvolvido desde o início da atual gestão", afirmou. Singer lembra que no fim de 2005 os resultados do PNAD, mostrando recuo nos índices de pobreza, já apontavam melhoras. Os bons ventos foram confirmados pelos números divulgados neste início de 2006. "A queda da desigualdade social, o crescimento da renda, a queda do desemprego, o crescimento do salário médio no Brasil, mostram que o governo tem atuado de forma a garantir a estabilidade e o crescimento da economia, associado à perspectiva da diminuição das desigualdades sociais no país", afirmou. Enquanto o governo tenta levar o debate para os indicadores econômicos, estabelecendo comparações com o governo FHC, a oposição insiste na questão ética. Os relatórios finais das CPIs serão devastadores para o governo, diz um integrante da cúpula pefelista. Para o líder da Minoria na Câmara, José Carlos Aleluia (BA), o governo está carimbado e o eleitor não vai prorrogar o contrato de um "governo corrupto". "Foi assim com o Fatah na Palestina e foi assim com os liberais no Canadá. Será assim também com os petistas no Brasil", comparou Aleluia. O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), celebra as vitórias políticas do governo neste início de ano. Ele diz que os partidos aliados também são responsáveis pelos bons resultados, afinal, a bancada governista voltou a atuar coesa no Congresso, garantindo a aprovação do Fundeb, da Super Receita e da emenda que derrubou a verticalização. "São resultados que mostram que a colheita em 2006 poderá ser bastante significativa", diz Berzoini, que aconselha, no entanto, "pé no chão". "Não podemos superestimar o papel representado pela semana passada. O debate político vai continuar, teremos outros ganhos e também, perdas", prevê. O secretário-geral do PSDB, deputado Eduardo Paes (RJ), afirma que sempre considerou Lula um adversário competitivo. "Teremos prazer em disputar com ele e mostrar a farsa que é o governo atual", atacou o tucano. Na opinião de Paes, Lula não recuperou o fôlego. Simplesmente, parou de cair nas pesquisas. Ele não acredita que esse novo cenário possa alterar os planos do PSDB. "Vamos manter a mesma estratégia. Só estamos decidindo agora quem será o nosso candidato porque os dois postulantes ao cargo trabalham, diferente do Lula", atiçou o tucano fluminense.