Título: CPI aprova relatório sem citar Palocci
Autor: Juliano Basile e Thiago Vitale Jayme
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2006, Política, p. A4

Sem conseguir articular maioria para aprovar as emendas de seus interesses, oposição e governo decidiram adiar os embates dentro da CPI dos Bingos e aprovaram ontem, sem alterações, o relatório parcial sobre a renovação do contrato entre a Caixa Econômica Federal (CEF) e a multinacional GTech. O senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) pretendia incluir o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, no rol de pedidos de indiciamentos. Já o governo lutava para retirar o nome do presidente da Caixa, Jorge Mattoso, dessa lista. O texto aprovado ontem mantém o indiciamento do dirigente do banco e não cita o ministro. Em tese, a votação das emendas ficou para a próxima semana. Mas dificilmente alguma coisa será aprovada. No caso de Palocci, nem PFL e nem o próprio PSDB dão guarida à tentativa de Antero de incluir o ministro no relatório do senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). Tucanos e pefelistas consideram cedo para indiciar o ministro da Fazenda. Seria um desgaste muito grande com o governo agora, ainda com a CPI em andamento. Pretendem incluir o ministro só na votação do relatório final da comissão. A mesma estratégia foi utilizada pelos governistas. O senador Valdir Raupp (PMDB-RO) apresentou emenda para retirar o nome de Mattoso da lista de indiciamentos. Não conseguiriam aprová-lo ontem e não deverão conseguir apoio até a próxima semana. Adiaram o embate para o fim da CPI. Havia também uma suspeita de acordão entre a oposição e o PT para tirar não só Mattoso como também salvar os dois ex-presidentes da Caixa Sérgio Cutolo e Emílio Carazzai, indicados no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). "Mais um acordão seria uma bomba para CPI. Não dá", disse um senador da comissão. O receio freou o ímpeto dos autores dos requerimentos. Antero e o senador José Jorge (PFL-PE) retiraram a emenda que pretendia excluir Cutolo e Carazzai do texto. Para se manter longe da possível movimentação dos demais senadores da CPI, o PFL manifestou seu posicionamento contrário à retirada de qualquer pessoa da lista de indiciamento do relatório. "Somos contra excluir Cutolo, Carazzai e Mattoso hoje, na próxima semana e no fim da CPI. Não votaremos nenhuma emenda para salvar qualquer um deles", disse o líder pefelista no Senado, José Agripino (RN), de forma incisiva. O PSDB ficou sozinho na intenção de salvar os ex-diretores. O governo também não encontrou apoio na retirada de Mattoso. E Antero não conseguiu convencer pefelistas e tucanos a apoiar integralmente a inclusão de Palocci. Agripino colocou nas mãos de Garibaldi a aprovação do relatório ontem. O relator agradeceu a solidariedade e manteve a decisão de votar o texto integralmente, o que ocorreu por unanimidade. Ciente das polêmicas a serem resolvidas, Efraim convocou a votação das emendas até a próxima semana, quando todas elas deverão ser rejeitadas. A Caixa divulgou nota na tarde de ontem rebatendo o relatório parcial aprovado ontem. A instituição manifestou "surpresa pela aprovação do relatório parcial da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Bingos, sem a votação das emendas apresentadas pelos parlamentares". E completou que "aguarda a votação das emendas, com serenidade e confiança no reconhecimento da legitimidade de suas ações e de seus representantes legais". No texto, a Caixa diz não haver nada contra seus dirigentes relacionado ao caso GTech. "Nada foi comprovado que colocasse em dúvida a lisura e correção dos procedimentos adotados por seus dirigentes e empregados", afirma o texto. A Caixa lembra manifestação do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o tema. "Por meio do Acórdão nº 2.252/2005, o Tribunal considerou que todas as providências adotadas pela atual gestão da Caixa, no relacionamento com a GTech, foram adequadas e permitirão - ainda este ano - que ela processe, com sistema próprio, as loterias e os serviços bancários realizados pelos lotéricos, desvencilhando-se de uma dependência tecnológica, que se arrasta há uma década", conclui. Como a Caixa, a GTech também divulgou nota sobre o assunto. Segundo a empresa, "o relatório parcial da CPI dos Bingos, votado nesta terça-feira, não apresenta qualquer prova de irregularidade no relacionamento entre a GTech e a Caixa Econômica Federal". O texto faz ataques ao texto do senador Garibaldi. "Baseado em suposições, o relatório é superficial em seus argumentos e chega a ser contraditório", diz o texto. O indiciamento de 34 pessoas, segundo a GTech, é contraditório e aponta "vala comum e generalizada". Por fim, "a empresa reafirma ainda que o contrato com a Caixa não é - e nunca foi - lesivo à União. Pelo contrário: entre 1997, ano em que a GTech começou a prestar serviços para a Caixa, e 2004, as loterias online do Brasil arrecadaram um total de R$ 22,3 bilhões, valor 154% superior ao período anterior ao início do contrato". (TVJ)