Título: Para Jobim, críticas fazem parte da "síndrome da conspiração"
Autor: Juliano Basile e Thiago Vitale Jayme
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2006, Política, p. A4
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, defendeu, ontem, a sua decisão de proibir a quebra de sigilo do presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, e disse que as críticas que sofreu fazem parte de uma "síndrome da conspiração" "Isso faz parte daquela síndrome da conspiração que domina normalmente esse tipo de situação. Mas, faz parte do jogo. Já conheço isso há muitos anos. Todas as decisões tomadas pelo Supremo são decisões a partir do pressuposto constitucional", disse Jobim. Este pressuposto seria, no caso, o direito ao sigilo. Okamotto é amigo íntimo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O próprio presidente do Sebrae confessou à CPI ter pago uma dívida do presidente com o PT no valor de R$ 29,4 mil. Logo, os senadores queriam quebrar o sigilo de suas contas para verificar se Okamotto mentiu ou não. Mas, Jobim impediu a medida sob a alegação de que o pedido estava fundamentado apenas em notícias de jornais e revistas. Durante a sessão de ontem da CPI dos Bingos, diversos senadores reclamaram da decisão de Jobim. "Assim não dá para aprofundar as investigações. Precisamos encontrar uma forma de evitar isso, senão a investigação morre", protestou o relator da CPI, senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). O senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) era um dos mais irritados com a decisão de Jobim. "Não há dúvida de uma coisa: o seu Okamotto é o homem-caixa do presidente Lula. Ele é o homem que cuida das finanças do presidente, que se diz pobre", disparou o pefelista. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) preferiu criticar o pedido de Okamotto para evitar a quebra de seu sigilo junto ao Judiciário. "Quem busca esse expediente tem algo a esconder. Temos de ir atrás do que ele tem para nos esconder", afirmou o parlamentar. Os jornalistas que cobrem o STF perguntaram a Jobim se as críticas o incomodaram. "É normal", respondeu o presidente do Supremo. "Todos aqueles que perdem pretensões acabam reclamando." Mas, Jobim está sendo cotado para ser vice na chapa de Lula e, agora, decidiu a favor de um amigo do presidente que está sendo investigado por uma ajuda financeira ao partido. Os jornalistas perguntaram, então, se o presidente do STF deixará o cargo no final de março para se candidatar. "Cada coisa no seu tempo. Cada tema no seu lugar", desconversou o presidente do STF, sempre alheio às especulações dos jornalistas com relação às suas pretensões políticas. Jobim admitiu que, se a CPI fizer um novo requerimento - desta vez, melhor fundamentado -, o STF poderá reconsiderar a sua decisão. Tudo depende da forma como este pedido for fundamentado. No entanto, um novo pedido não será mais analisado por Jobim. Ele só julgou o primeiro porque o STF estava de recesso e o presidente da Corte era o único de plantão. Agora, um novo pedido será distribuído entre nove ministros do tribunal. O novo pedido de quebra do sigilo bancário de Okamotto já foi anunciado ontem no Senado. "Vamos fazer outro requerimento com maior embasamento jurídico e aprová-lo", prometeu o líder do PFL no Senado, José Agripino (RN). Coube ao senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) redigir novo requerimento a ser aprovado na reunião administrativa de hoje da CPI. O presidente da CPI, Efraim Morais (PFL-PB), sustentou a necessidade da quebra de sigilo no depoimento prestado por Paulo de Tarso Venceslau, ex-militante petista. Segundo denúncia feita por ele, coube a Okamotto fazer uma lista com as empresas que prestavam serviço às prefeituras petista para elaborar um plano de cobrança de propinas. "As testemunhas dão conta de que o Okamotto participava de reuniões claramente com tráfico de influência", atacou Agripino.