Título: Fim da era do pragmático Alan Greenspan no Fed
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2006, Opinião, p. A8
Se a mais longa onda de prosperidade americana (março de 1991 a março de 2001) tivesse um rosto, bem que poderia ser o de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, o banco central americano. Só em condições excepcionais um banqueiro torna-se popular e, algo inédito, Greenspan teve seus dias de pop star. Eles acabaram ontem, quando comandou a última reunião do Fed. Ben Bernanke, que já esteve na instituição e comandava o time de assessores econômicos de George W. Bush, o substituirá. Há temor e expectativa a respeito dessa mudança na gestão da política monetária dos EUA. Desde 11 de agosto de 1987 Greenspan consolidou-se como um oráculo dos mercados mundiais e adquiriu uma credibilidade raramente igualada nos EUA ou fora dele. Bernanke, acadêmico de grandes credenciais, terá de conquistar prestígio e vencer os desafios nada triviais que estão no horizonte. A ansiedade com a troca de guarda pode se revelar exagerada. A nova cúpula do Fed provavelmente vai se mover em direção à maior previsibilidade em suas decisões e não no sentido contrário. A flexibilidade e o ecletismo de Greenspan tornaram-se seus ativos mais admirados, porém a transparência da política por ele perseguida, dizem os críticos, deixou a desejar. Ele próprio, nos últimos anos, adotou uma estratégia mais aberta para os comunicados das decisões do Fed. Bernanke, ao que tudo indica, se apoiará em um processo de decisão mais colegiado e com uma linguagem menos ambígua do que a empregada por seu antecessor. Esses métodos se encaixam na visão distinta de Bernanke sobre a orientação geral de um banco central sobre a política contra a inflação. Ele é adepto das metas de inflação, algo que Greenspan se opôs por engessar a atuação do Fed e retirar-lhe a maleabilidade necessária. Obviamente, Bernanke não realizará seu projeto da noite para o dia, se é que o realizará. Porém, caso consiga fazê-lo, é certo que o Fed se tornará mais previsível e menos "brilhante" que sob a batuta de Greenspan. Greenspan e Bernanke, porém, têm o mesmo ponto de vista sobre a inconveniência do uso da política monetária para atacar "bolhas" em ativos. O atual titular do Fed recebe críticas por esta posição. A estratégia típica de Greenspan foi a de não usar os juros para estourar ativos inflacionados, como o das ações de tecnologia em 2000, e, sim, a de garantir a liquidez e evitar os estragos após o estouro da bolsa. Ela não convenceu seus críticos, que consideram sua política um estímulo aos investidores para que assumam posições arriscadas, já que sabem de antemão que o "socorro" virá depois. Vista do ângulo de uma economia nacional, o reparo pode fazer sentido. Mas como guardião do mais influente BC do mundo e da moeda com o que o mundo mais transaciona, a crítica perde parte de sua força. Desde que, dois meses após assumir o cargo, a bolsa de Nova York despencou, em outubro de 1987, Greenspan manteve a mesma atitude - as feridas se curam com mais liquidez. A elevação dos juros a partir de meados dos anos 90, quando já se via sinais da "exuberância irracional" nos mercados acionários, poderia ter efeitos mais catastróficos. O México havia quebrado nos últimos dias de 1994 e a essa debacle se sucederam a dos países asiáticos em 1997, a da Rússia, em 1998 e a do Brasil no ano seguinte. A posição do Fed de fazer um mal menor para evitar um maior, encabeçada por Greenspan, fazia todo sentido. Ele usou a mesma arma após a bolha de tecnologia e os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Nessa época, a decisão de não elevar os juros quando a economia dos EUA avançava com uma das menores taxas de desemprego do país - pelos manuais, sinal seguro de mais inflação - foi um dos grandes achados de Greenspan e o melhor exemplo de seu espírito antidogmático. As novas tecnologias, segundo ele, estavam reduzindo aceleradamente os preços de produção e os EUA poderiam conviver com um desemprego bem menor do que antes. Foi nesse momento que o presidente do Fed teve papel chave para garantir o maior ciclo de expansão americano. Bernanke vai se deparar com uma bolha imobiliária, gerada pelas mais baixas taxas de juros em meio século, e déficits externo e fiscal recordes. Greenspan reconheceu os dois problemas, mas elevou os juros de forma comedida, apostando no esfriamento gradual dos ativos imobiliários. Seu sucessor deve seguir a mesma política e será melhor para o mundo que ambos estejam certos.