Título: O novo rosto do mundo globalizado
Autor: Martin Wolf
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2006, Opinião, p. A9
Novas tecnologias e aumento da oferta de mão-de-obra estão transformando todo o planeta
China, Índia, comércio, mudanças climáticas, insegurança energética, recuperação japonesa, futuro econômico e político europeu, o Google, a era da informação, segurança na internet, desequilíbrios mundiais e o programa nuclear iraniano. O que esses temas têm em comum? Uma resposta é que eles foram todos discutidos na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos. Outra resposta, mais profunda, é que eles cabem todos sob a rubrica "oportunidades e ameaças da globalização". Larry Summers, presidente da Universidade Harvard e ex-secretário do Tesouro dos EUA, defendeu em Davos a idéia de que o mundo está passando por uma transformação tão profunda quanto a Renascença ou a Revolução Industrial. A afirmação não é absurda. Na argumentação de Summers, mudanças tecnológicas e a admissão de bilhões de asiáticos na economia mundial estão mudando o mundo. Essas mudanças são, a um só tempo, conseqüência e causa do avanço do mundo inteiro rumo ao mercado, fenômeno que denominamos globalização. As tecnologias de comunicação sempre desempenharam um papel central na história humana. Consideremos o impacto da escrita, da impressão, do cabo, do telefone, do rádio e da televisão. A internet, com sua promessa de informação disponível a todos, poderá não se revelar tão revolucionária como a escrita ou a impressão. Mesmo assim, um mundo no qual o custo marginal da reunião, armazenamento, acesso e transmissão de informações está caindo para zero não tem precedentes. Mais de 1 bilhão de pessoas já têm acesso à internet. No que talvez seja ainda mais extraordinário, cerca de 1,5 bilhão de pessoas usam telefones celulares. O potencial para a disseminação de acesso sem fio à internet parece enorme. O impacto econômico da China, e agora da Índia, com uma população combinada próxima de 2,4 bilhões de pessoas, já é evidente. Só a população da China já é maior do que a da América Latina e da África Subsaariana juntas. Além disso, os gigantes não estão sozinhos. Se incluirmos a população restante dos países em desenvolvimento no leste e sul da Ásia, teremos delimitado mais de metade da humanidade. O efeito global da ida ao mercado e dos custos declinantes dos transportes e das comunicações em todo o mundo é o aumento de pelo menos quatro vezes no número de trabalhadores à disponibilidade da economia mundial. O potencial ainda inexplorado é maior do que qualquer coisa que já tenha acontecido até hoje. Mesmo atualmente, o PIB per capita chinês, em termos de paridade de poder de compra, é menor do que um sexto do americano. O da Índia é metade do da China. Consideremos algumas das conseqüências da ascensão dos novos fornecedores mundiais: um incessante surto na demanda por energia e outras matérias-primas industriais, à medida que esses países atravessam a fase de rápido desenvolvimento econômico, mais intensiva no uso de energia; pressão decrescente sobre salários, especialmente de trabalhadores não-especializados em países avançados; e competição cada vez mais intensa por parte de produtos manufaturados cuja produção envolve substancial participação de mão-de-obra, especialmente na África Subsaariana e na América Latina. Um dos resultados disso é que tanto pessoas ricas como grande número de pessoas antes pobres melhoraram de vida. Mas a camada intermediária foi menos favorecida. Se adicionarmos o impacto das novas tecnologias, poderemos identificar ainda outras mudanças: mercados financeiros funcionando por 24 h; integração da produção e da distribuição em todo o planeta; e o incremento no potencial de comercialização dos serviço, cuja produção possa ser convertida em bits de informação. A divisão histórica de produção em produção comerciável de bens e produção não-comerciável de serviços está ficando obsoleta. Grande parte do setor de serviços (serviços financeiros, grande parte do setor de entretenimento e até mesmo serviços educacionais) é agora comerciável. De fato, pela primeira vez na história, muitos serviços serão ainda mais comerciáveis do que mercadorias. A Índia, onde o setor de serviços é relativamente vigoroso, mais do que seu setor de manufatura, em termos comparativos internacionais, é uma beneficiária dessas tendências. Entretanto, nem todas as oportunidades crescentes para produção e comércio mundialmente integrados estão em atividades lícitas. A nova abertura também facilita fluxos ilegais de migrantes internacionais, tráfico de pessoas e de narcóticos, terrorismo internacional, pirataria, corrupção e muitas outras manifestações negativas. Além de tudo isso, devemos considerar os efeitos geopolíticos. A China já é uma das potências mundiais líderes. Dentro de poucos anos, a Índia terá o mesmo status. Em termos da política de grandes potências, essa mudança é pelo menos tão significativa quanto a ascensão dos EUA, Alemanha, Japão e Rússia no fim do século XIX e início do século XX. Essa mudança pode ser vista como uma guinada - ou um retorno à normalidade - depois do que muitos na Ásia consideram como um período anômalo, de dominação pelos europeus e sua prole colonial. Mudanças demográficas reforçarão essa mudança. A parcela da população mundial que vive nos atuais países de alta renda, segundo previsões da ONU, deverá cair de 20% em 2000 para possivelmente 14% em 2050.
Ascensão da China e Índia como potências mundiais é tão significativa quanto a dos EUA, Alemanha, Japão e Rússia no fim do século XIX
Tão óbvios quanto o crescente impacto de todas essas mudanças são os enormes problemas por elas criados. Consideremos apenas alguns dos mais importantes. Em primeiro lugar, as empresas têm de aprender a operar num mundo muito mais competitivo e dinâmico do que qualquer outro a que estavam acostumadas. As autoridades econômico-financeiras precisam proporcionar-lhes um ambiente que as permitam operar em tal mundo, uma perspectiva de que muitos governos europeus ainda não assumiram. Segundo, os governos de países de alta renda precisam adequar-se às mudanças criadas pela globalização sem entregarem-se ao protecionismo. Terceiro, os governos precisam também encontrar maneiras de administrar tão harmoniosamente quanto possível os impactos da liberalização dos fluxos de capital sobre as taxas de câmbio e no balanço mundial de pagamentos. Quarto, os responsáveis por países em desenvolvimento, inclusive as nações doadoras, devem achar maneiras de ajudar os que, até hoje, tiveram as menores condições de aproveitar as oportunidades e administrar os perigos desse mundo novo. Quinto, as autoridades econômico-financeiras precisam formular políticas energéticas de longo prazo que facilitem a ascensão do consumo de energia. Essa tem sido a constante nos últimos dois séculos. A ascensão da Ásia nos assegura de que isso não irá mudar. Sexto, os tomadores de decisões precisam avaliar a importância das mudanças climáticas e encontrar formas de enfrentá-las, presumivelmente por meio de uma combinação de contenção e adaptação. Por último, embora não menos relevante, os governos no mundo inteiro precisarão cooperar para assegurar o mais fundamental bem público mundial: paz e estabilidade. Este é um novo e, em muitos aspectos, admirável mundo. Cabe agora a nós demonstrarmos que merecemos habitá-lo.