Título: Questão vira "divisor de águas" entre ortodoxos e heterodoxos, diz Carneiro
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2006, Especial, p. A10

O economista Ricardo Carneiro, professor do Instituto de Economia da Unicamp, destaca o papel da política macroeconômica como o "o grande divisor de águas" no debate entre economistas ortodoxos e heterodoxos sobre a capacidade de o Brasil crescer acima de 3,5%. Para ele, a questão vai nortear o debate eleitoral em 2006. Para Carneiro, o conceito de PIB potencial, entendido como a capacidade de oferta da economia ou como a capacidade produtiva instalada da economia, é unanimidade. As divergências surgem em relação à capacidade de o país crescer acima de 3,5% com ou sem inflação e como e com quais instrumentos criar ambiente favorável ao aumento da taxa de investimento, que move o PIB. O economista reconhece que o PIB potencial vem crescendo lentamente. Para mensurá-lo há várias medidas indiretas, como capacidade instalada da indústria, infra-estrutura, geração de energia elétrica. Ele entende que o número direto do crescimento do PIB potencial é "um chute". "Para esses ortodoxos, que respondem pela gestão econômica do governo Lula, o PIB potencial de 3,5% calculado pelo Banco Central já está dado e não pode ser transformado pela política macroeconômica. Na lógica do pensamento deles, o que não pode crescer acima de 3,5% é a demanda". É para regular a demanda, evitando que ela cresça acima do PIB potencial, que orientam a política econômica (fiscal, cambial e monetária), explica. "O BC valoriza excessivamente a estabilidade da inflação em patamares muito baixos, porque é a lógica dos detentores de ativos financeiros. O crescimento é o que der. Melhor que cresça 3% que arriscar um aumento da inflação. Esta é a lógica do pensamento", diz Carneiro. Para os ortodoxos, segundo Carneiro, a estabilidade aliada a reformas microeconômicas, como reforma trabalhista, tributária e segurança jurídica, são as forças que vão criar um ambiente mais favorável à ampliação, até um certo limite, do ritmo de crescimento do PIB potencial. Já os desenvolvimentistas ou heterodoxos, com os quais o economista se identifica, acreditam que a política macroeconômica deve interferir para o crescimento do PIB potencial, "pois ela define alguns preços-chaves da economia, como taxa de juro e taxa de câmbio, que são tomados como parâmetro na decisão de investir". Para essa correntes, a política expansionista é necessária, mas não suficiente para garantir a ampliação da taxa de investimento, que é o que move o PIB. "É preciso combiná-la com políticas estruturais, como investimento público em infra-estrutura, para criar um horizonte de longo prazo para o país", diz Carneiro. O economista João Sicsú, da Universidade Federal do Rio de Janeiro acha que a economia brasileira já deu provas de que é possível crescer acima de 3,5% com controle da inflação, como ocorreu nos anos 70 e em 2000 e 2004. Para Sicsú, o encolhimento do investimento, principalmente o público, nos últimos anos, foi responsável pela redução do PIB potencial. Ele defende uma retomada do investimento público para o país voltar a crescer a 5% ao ano. Sicsú até admite que o PIB potencial do país hoje é baixo, em torno de 3,5% a 4%, pois a taxa de investimento vem caindo e está inferior a 20% do PIB. "Um dos responsáveis por esta retração da taxa de investimento é o governo, que não tem feito investimento público", diz. "Quem dá impulso para o PIB potencial crescer é o governo", destaca. "O investimento público não afasta o investimento privado como entendem os ortodoxos, pelo contrário, a taxa de investimento só vai subir quando houver investimento público", prevê. "Hoje, no Brasil, impera uma concepção de que o equilíbrio macroeconômico é conquistado pela estabilidade de preços. É mais que isso. Crescimento é geração de emprego, equilíbrio externo, distribuição de renda, aumento da produção", diz Sicsú.