Título: Nos Estados Unidos, conceito é mais usado para previsões de longo prazo
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2006, Especial, p. A10

Os Estados Unidos usam o conceito de PIB potencial mais para projeções de longo prazo do crescimento econômico e não tanto para nortear decisões de política monetária. O conceito do potencial de crescimento do PIB é bastante usado, por exemplo, pelo Escritório de Orçamento do Congresso (Congressional Budget Office, o CBO), que faz projeções fiscais, de endividamento e arrecadação em horizontes de dez anos. Teoricamente, o conceito de PIB potencial pode ser usado para prever a inflação- taxa de crescimento acima do potencial gera inflação. Mas ele falha ao ser usado em "tempo real", ou seja, como maneira de definir taxas de juros. O modelo de PIB potencial entrou em crise nos EUA entre os anos de 1997 e 1999, quando as taxas de crescimento econômico estavam acima do potencial teórico da economia. Se o modelo fosse seguido, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) teria de aumentar juros para conter uma inflação que cresceria irremediavelmente, já que a economia estava num ritmo acima do suportável. O Fed, por meio do então presidente Alan Greenspan, desconfiou do modelo e apostou que a economia estava mudando o nível histórico de crescimento suportável devido ao aumento de produtividade. "Foi uma das piores épocas para o uso do modelo de PIB potencial", afirma John Peterson, economista do CBO e autor de um estudo sobre metodologias para estimar o crescimento suportado pela economia. Para definir a política monetária, diz, são mais importantes informações de alta freqüência, como índices de inflação e salários, emprego ou investimento. "Para o CBO, é fundamental usar o conceito de PIB potencial porque trabalhamos com horizonte de dez anos." Mais recentemente, o modelo de PIB potencial apontou corretamente a necessidade de estimular a economia para evitar o risco de deflação após o estouro da bolha da internet nas bolsas. O Federal Reserve tem demonstrado ceticismo em relação ao uso do PIB potencial para prever inflação e definir política monetária. Um estudo de dois economistas do Fed, publicado em 2004, diz que usar o hiato do produto, ou seja, a diferença entre o crescimento real e o potencial, não funciona bem "para prever a inflação em tempo real". Segundo Athanasios Orphanides e Simon van Norden, "a utilidade do hiato do produto como instrumento de previsão da inflação é instável ao longo do tempo (...) e isso coloca em dúvida a utilidade prática do conceito para prever inflação". O PIB potencial é preciso apenas quando usado a posteriori, ou seja, usando dados do passado. O economista-chefe para os EUA da Lehman Brothers, Ethan Harris, diz que embora o conceito seja teoricamente correto, "há grandes incertezas quando ele é usado para tentar prever o futuro". Como em geral é baseado no comportamento passado, pode haver distorções em momentos de mudança de nível de produtividade e incertezas em relação ao nível definido como de pleno emprego, por exemplo. Além disso, no caso de dados sobre utilização de capacidade instalada, a crescente participação de importações no consumo americano reduz a importância do seu uso local para estimativas inflacionárias. Nos últimos anos, a forte importação da China, que manteve sua moeda desvalorizada, contribuiu para conter a inflação nos EUA. Para projeções de longo prazo, nas quais o PIB potencial é bastante usado, há dois métodos principais de cálculo. Um, chamado estatístico, extrai, de dados passados de crescimento econômico, um padrão (percentual de crescimento suportado), excluindo oscilações sazonais ou de ciclo de negócios. O modelo usado pelo CBO é baseado no chamado "modelo Solow" de crescimento, que incorpora informações como previsões sobre o tamanho e qualificação da futura força de trabalho (dados também sujeitos a incertezas nos EUA, dado o grande contingente de imigração).