Título: Cálculo do PIB potencial divide economistas
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2006, Especial, p. A10
Conjuntura País pode crescer 5% ao ano, diz Delfim; para Werlang, baixa taxa de investimento é obstáculo
A idéia de que o Brasil não pode crescer mais do que 3,5% sem provocar pressões inflacionárias é combatida por vários economistas. Quem puxa a fila de críticas é o ex-ministro Delfim Netto, que em seguidos artigos e entrevistas ataca a idéia de que o PIB potencial do país é de 3,5%. Muitas vezes, Delfim atribui essa projeção de 3,5% ao Banco Central (BC). Por meio da assessoria de imprensa, o BC informa apenas que "não divulga estimativa para o crescimento do PIB potencial". Para Delfim, a combinação da idéia de que o país não pode crescer mais do que 3,5% sem desequilíbrios e de uma meta de inflação ambiciosa fez o Brasil perder dois pontos percentuais de crescimento no ano passado. "Modelo é para ser olhado, não é para ser obedecido. Pergunte ao Alan Greenspan se ele obedece modelos", diz ele, referindo-se ao presidente do Federal Reserve (Fed, o BC americano). Para Delfim, o Brasil pode, sim, crescer algo como 5% ao ano por vários anos seguidos. Ele diz que o crescimento é que leva ao aumento de investimento. Foi o que teria ocorrido em 2004, quando o PIB cresceu 4,9% e o investimento, 10,9%. "Nos anos 70, o crescimento acelerado foi seguido pelo investimento acelerado e não precedido", afirma ele, criticando a idéia de que é preciso primeiro investir para depois crescer. Esse é um ponto polêmico entre os economistas. O ex-diretor do BC Sérgio Werlang, diretor do Itaú, avalia que a expectativa de crescimento de fato incentiva as empresas as investir mais, mas acredita que a causalidade principal é inversa, ou seja, o investimento mais alto abre espaço para um crescimento mais forte. Para ele, a taxa de investimento é baixa no país, na casa de 20% do PIB, em grande parte devido aos juros reais elevados. Na Coréia do Sul, essa taxa, que mede o investimento na construção civil e em máquinas e equipamentos, está em 29% do PIB. Na sua crítica aos modelos que estimam crescimento potencial, Delfim diz que, "por mais sofisticados que sejam", eles têm o grande problema de usar informações passadas, que muitas vezes nada têm a ver com as condições atuais da economia. "Política monetária é um quarto de teoria e três quartos de arte". E para o BC? "Para eles, é cinco quartos de teoria". O desempenho do Brasil nos últimos anos sugere que o potencial de crescimento do país é baixo. Nos últimos 25 anos, o país cresceu a uma média de 2,7% ao ano. A questão é que, nesse período, o país passou por hiperinflação, calotes, congelamento de preços e crises externas complicadas. Nos últimos três ou quatro anos, porém, a economia passou por uma série de ajustes importantes, em especial nas contas externas, como lembra o economista-chefe da MCM Consultores, Celso Toledo. Isso sugere que o crescimento potencial é superior a 2,7%, já que pelo menos a restrição externa parece superada. Para Toledo - que considera o conceito "definitivamente relevante" -, essa taxa está hoje entre 3% e 4%. "Mas é uma taxa que muda ao longo do tempo. Acho que hoje está mais próxima de 3% do que de 4%, mas ela tende a aumentar à medida que forem feitas mudanças, como cortes de gastos públicos, que permitam reduzir a carga tributária e se diminuam incertezas no Judiciário, por exemplo", diz ele, reconhecendo a dificuldade em calcular a taxa. Werlang diz que as estimativas de PIB potencial são importantes para definir o nível dos juros, mas que o BC não pode prescindir de outros instrumentos para fixar a Selic. Indicadores antecedentes sobre a atividade econômica, índices de preços e o velho bom senso também são fundamentais, avalia ele, para quem política monetária depende 50% de um bom modelo e 50% de arte. Vale dizer que, em documentos como o relatório de inflação, o BC mostra que analisa uma série ampla de indicadores. Os modelos do Itaú sugerem que o PIB potencial está entre 3% e 4%, ficando mais perto de 3,5%. Para os cálculos, o banco leva em conta o estoque de capital e de mão-de-obra, além da produtividade. No caso da mão-de-obra, é considerada a população ocupada e a média dos anos de estudo. Embora ache que o BC exagerou na dose de aperto monetário, Toledo rechaça a idéia de que a instituição aumenta os juros quando o crescimento atinge um determinado nível. As mudanças na Selic ocorrem quando a inflação se desvia da trajetória apontada pelas metas, avalia ele, lembrando que o crescimento potencial não é diretamente observado. Em 2004, o Brasil cresceu 4,9%, o melhor resultado desde 1994. A partir da metade do ano, porém, a inflação se acelerou, levando o BC a elevar os juros. Para Toledo, é um sinal de que a economia não está preparada para expansões nesse ritmo por muito tempo. Ele acredita que houve um descompasso entre a oferta e a demanda. O nível de utilização de capacidade instalada, que estava muito baixo no começo de 2004, terminou o ano próximo de sua máxima histórica. O economista Caio Prates, do grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem uma visão diferente. Para ele, em 2004 a inflação começou a subir não devido a um descompasso entre oferta e demanda, mas por um choque causado pela alta das commodities, que acabou durando mais do que se esperava por conta da persistência inflacionária. Os agentes econômicos, influenciados pela alta da inflação corrente, passaram a projetar uma elevação mais forte dos índices no futuro, dificultando a convergência do IPCA para as metas. Prates diz ainda que, de 1994 para cá, em geral o país cresceu pouco não porque a demanda avançasse mais do que a oferta, mas quase sempre devido a crises de confiança, que acabaram em crises cambiais, com forte impacto sobre a inflação. Com o ajuste externo, esse quadro mudou, tanto que as pressões inflacionárias de 2004 e 2005 não decorreram de crises cambiais. Nesse cenário, calcular o PIB potencial, levando em conta variáveis que não refletem a situação atual da economia, seria complicado. Ele avalia que o Brasil pode registrar crescimento na casa de 5% por pelo menos dois anos seguidos sem que isso gere pressões inflacionárias. Para garantir que a expansão continue forte depois desses dois anos sem provocar desequilíbrios, é necessário que o investimento reaja nesse período de forma consistente, avalia ele. Werlang tem dúvidas em relação a isso. Ele acredita que só seria possível crescer dois anos seguidos a 5% se o nível de capacidade instalada estivesse muito baixo no primeiro ano da expansão. "Mas teria sido possível crescer 4,9% em 2004 e algo como 3% a 3,5% no ano passado", diz ele, para quem o BC foi muito duro na condução da política monetária. Em 2005, o PIB cresceu cerca de 2% a 2,5%.