Título: Sistema japonês divide opiniões
Autor: Daniel Rittner e Paulo de Tarso Lyra
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2006, Empresas &, p. B3

A defesa do ministro das Comunicações, Hélio Costa, quanto às vantagens do sistema japonês de TV digital não é compartilhada por outros setores do governo. Técnicos que estudam os três modelos - europeu, americano e japonês - apontam que este último é o que menos vantagens traz, já que possui baixa escala (só é produzido no Japão) e não há garantias de que haverá exportação de tecnologia para o Brasil. "Neste momento, o modelo japonês seria o pior para o Brasil", resumiu uma fonte do governo. A postura de Costa já gerou uma divisão no grupo interministerial criado para discutir o tema. No penúltimo encontro sobre o assunto, Costa foi questionado pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan, sobre as razões da exclusão das negociações com os produtores americanos e europeus. "Se estamos em um processo de negociação, não podemos excluir ninguém, temos que saber o que cada produtor tem a nos oferecer", cobrou Furlan. Na entrevista que se seguiu ao encontro, no Palácio do Planalto, Costa recuou da sua posição anterior e admitiu que americanos e europeus continuavam no páreo. Outra divergência crucial é sobre a data de escolha do modelo. Para Hélio Costa, a primeira quinzena de fevereiro é o limite. Segundo fontes ouvidas pelo Valor, esta data - mais especificamente o dia 10 de fevereiro - é o prazo marcado para a apresentação do relatório técnico, expondo as vantagens e desvantagens de cada sistema. "A palavra final caberá ao presidente Lula e não tem previsão de data. O relatório técnico não precisa nem indicar qual sistema é melhor, basta concentrar-se na análise de cada um deles", resumiu um assessor que acompanha as negociações. Por trás das negociações do governo, estão os interesses das empresas de radiodifusão. Elas apresentaram um documento ao grupo interministerial defendendo o modelo japonês. Avaliam que ele preenche melhor os requisitos de potência de espectro (6 MHZ), formato de imagem de alta definição ou standard (tradicional), portabilidade (capacidade de recepção) e mobilidade, segundo os empresários do setor. Técnicos que estudam o caso reconhecem que o sistema japonês é o que possibilita a compressão do espectro: a imagem seria transferida em 3 MHZ, com a mesma qualidade, deixando os outros 3 MHZ livres para outros serviços, como transmissão de dados, hoje um nicho ocupado apenas pelas empresas de telefonia. Outro interesse dos empresários, de acordo com fontes do Executivo, seria retardar ao máximo a migração completa dos telespectadores para o sistema digital. Como o modelo japonês só funciona em televisões de tela plana - de altíssimo custo para os consumidores - grande parte da população permaneceria no sistema analógico. "Já com os modelos europeu e americano, bastaria a implantação de um conversor, que custa cerca de R$ 500, para que a imagem digital seja captada", acrescentou um assessor governista. (PTL)