Título: Mercosul quer retomar negociação com UE
Autor: Paulo Braga
Fonte: Valor Econômico, 02/02/2006, Brasil, p. A3

O Mercosul quer retomar as negociações do acordo com a União Européia para a criação da maior zona de livre comércio do mundo, praticamente paralisadas desde outubro de 2003. O Brasil está disposto a melhorar sua oferta de abertura do mercado automotivo e do setor de serviços, desde que os europeus ofereçam boas condições de acesso aos produtos agrícolas. O governo acredita que a cúpula América Latina - Europa, que será realizada em Viena, na Áustria, em maio, é uma boa oportunidade para selar o acordo. O diretor do departamento de negociações internacionais do Itamaraty, Regis Arslanian, afirmou ao Valor que o "horizonte da Rodada Doha está mais claro", o que pode ajudar nas negociações entre o Mercosul e a UE. Apesar do pouco avanço obtido na reunião ministerial de Hong Kong, em dezembro, o embaixador acredita que os limites e as possíveis concessões que serão obtidas na rodada ficaram mais evidentes. O impasse na Organização Mundial de Comércio (OMC) travou as conversas sobre o acordo Mercosul-UE no ano passado. A próxima reunião entre os negociadores europeus e sul-americanos será realizada em Bruxelas em fevereiro. Segundo Arslanian, devem ocorrer avanços concretos das ofertas nesse encontro. Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai realizam uma reunião preparatória na terça e na quarta-feira da próxima semana, em Buenos Aires, para elaborar quais seriam as possíveis melhorias das propostas do bloco do Cone Sul. Em março, as negociações podem ter novo impulso com a visita, ainda não confirmada oficialmente, do comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, ao país. "Não é certo esperar avanços só do lado europeu", admite Arslanian. Ele adianta que o Brasil pode melhorar sua proposta para a importação de veículos e de abertura do setor de serviços. Na fase final das negociações em 2003, o Mercosul foi criticado pelos europeus por conta de um retrocesso na oferta automotiva. A proposta do Mercosul previa um prazo de 18 anos para a queda total das tarifas - o maior prazo de desgravação do acordo - e oferecia cota de apenas 25 mil veículos para entrada imediata no mercado com tarifa zero. Em serviços, o Brasil ofereceu benefícios em telecomunicações e setor financeiro, mas não atingiu a ambição dos europeus. Ao mesmo tempo em que acena com concessões, o governo brasileiro cobra uma abertura do mercado agrícola da Europa. "Já conhecemos bem quais são os nossos custos, mas os benefícios ainda estão por vir", disse Arslanian. Segundo o embaixador, a última oferta apresentada pelos europeus era "reduzida e cheia de condicionalidades". Ele afirma que "o ponto de interrogação" das negociações é a possibilidade uma oferta concreta da UE em agricultura. Arslanian, no entanto, está otimista. Ele afirma que "as negociações chegaram em uma fase conclusiva" e aposta na conclusão do acordo em um prazo bastante curto. "O objetivo de Viena segue de pé. As negociações serão retomadas com vigor. Acreditamos que é possível fechar o acordo", disse, referindo-se à cúpula América Latina-UE, em maio. Do lado europeu, surgiu um certo mal-estar com a reunião de Viena. Fontes do bloco afirmam que o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, teria recusado o convite para participar da cúpula, alegando compromissos internos. Os diplomatas europeus temem o esvaziamento do encontro com a ausência de Lula.