Título: Cultura é uma boa aplicação
Autor: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 19/11/2004, Eu & Fim de Semana, p. 8
Uma surda disputa de bastidores envolve seis capitais de Estados brasileiros e só uma delas, ao menos por enquanto, sairá ganhando. Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza e Belém brigam para saber qual será escolhida, no próximo ano, para ser a quinta cidade do país a sediar uma unidade do cobiçado Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Aracaju também já declarou sua candidatura, mas a capital sergipana chegou um pouco atrasada em relação às demais. "Não temos condições técnicas e financeiras de expandir da forma que hoje é demandada. Acredito que essa demanda, essa cobiça, esse objeto de desejo em que se transformaram os centros culturais para as cidades, devem-se ao espaço que eles conquistaram, principalmente o do Rio de Janeiro, que se transformou em uma verdadeira grife de cultura", disse o diretor de Marketing do Banco do Brasil (BB), Henrique Pizzolatto, responsável pela gestão da área cultural do banco. Em outubro, o CCBB do Rio, o primeiro deles, completou 15 anos com a marca de 24 milhões de freqüentadores que assistiram a 32 mil apresentações. O CCBB do Rio, localizado em prédio de linhas neoclássicas do centro da cidade, originalmente uma agência do BB, já tornou efetivos 2.500 projetos culturais, entre exposições, seminários, mostras cinematográficas e outras atividades. De quebra, serviu como ponto de partida para dinamizar uma área das mais antigas e bonitas do centro da cidade, que estava entrando em degradação. Em outubro de 2000, foi inaugurado o CCBB de Brasília, em prédio projetado por Oscar Niemeyer, e um ano depois surgiu a unidade de São Paulo, no edifício do centro da cidade que abrigou a primeira agência do BB na capital paulista. O crescimento, segundo Pizzolatto, tem sido sempre balizado pela preocupação de manter o padrão de qualidade que vem marcando a história do CCBB. Até o final de 2005, ou começo de 2006, será a vez do CCBB de Recife, o primeiro que ocupará um prédio que não é do BB e também o primeiro que nasce de parceria do banco estatal com a prefeitura da cidade e com o setor privado. A mais nova unidade ficará na antiga estação ferroviária da capital pernambucana, inaugurada em 1888, mantendo a tradição do CCBB de sempre se instalar em um prédios de valor histórico e arquitetônico. A reforma da velha estação custará R$ 17 milhões, podendo, de acordo com Pizzolatto, passar de R$ 20 milhões com a inclusão de um teatro e do mobiliário. O BB vai destinar, em 2005, R$ 50 milhões para sua área cultural, da qual o CCBB é o carro-chefe, com um aumento de 19% sobre os R$ 42 milhões deste ano, mas as obras de Recife não estão incluídas neste orçamento. A disputa para sediar o quinto CCBB será decidida pelo conselho diretor, instância máxima do BB, formado pelo presidente e pelos sete vice-presidentes do banco. O diretor de Marketing do banco disse que foram criados grupos técnicos para municiar os conselheiros com dados para a tomada de decisão. Serão levados em conta fatores como a produção cultural da região, situação dos imóveis propostos e até contrapartidas oferecidas ao BB. Mas as cidades derrotadas não devem perder as esperanças. "O plano do banco é de expansão, prudente, inteligente, cautelosa e com qualidade", acena Pizzolatto. São Paulo também está no roteiro de expansão do CCBB. Pizzolatto disse que o BB está negociando com autoridades paulistas uma localização para uma segunda unidade do Centro Cultural ou a transferência da sede atual para uma outra, mais ampla, com chances maiores para a primeira opção. Em três anos, o CCBB de São Paulo recebeu 1,8 milhão de visitantes, média de 600 mil por ano, contra 1,6 milhão/ano da unidade carioca. Segundo Pizzolatto, as pesquisas feitas pelo BB concluíram que a menor freqüência do CCBB paulistano está relacionada a dois fatores: o relativamente pouco tempo de existência e o acanhamento das instalações. Daí a idéia de uma nova sede. Não há nada definido. "Conversamos com a prefeitura e com o governo do Estado e já temos algumas ofertas de imóveis. O critério de escolha que adotamos é o de que o novo Centro não canibalize o já existente. Geograficamente, vai precisar estar em uma região que atenda a um público que, em função da distância e das condições de acesso, tem dificuldade de ir ao atual", explicou Pizzolatto, deixando clara sua preferência pela opção de um segundo CCBB em São Paulo, e não pela transferência do atual para um prédio maior. O CCBB do Rio também terá mais espaço. Até o fim de 2005, o BB pretende ampliar a área de exposições, incorporando um trecho do terceiro andar do prédio que hoje ainda é usado pela área de rcursos humanos do banco. E o pavimento térreo do edifício de quatro andares, onde hoje funciona uma agência do BB, será reformado para abrigar um teatro com 250 lugares. Com isso, toda a área do prédio passará a ser ocupada pelo Centro Cultural. O CCBB é uma idéia importada da Europa, que ganhou aqui características próprias. Segundo Pizzolatto, o BB começou a discutir o projeto de um centro cultural a partir da tendência dos grandes bancos europeus a criarem acervos artísticos que acabaram se transformando em grandes galerias de arte desses bancos. Com o CCBB foi criada uma estratégia diferente. "O BB concluiu, com o passar do tempo, que deveria adotar a política de ter um espaço disponível para a população, buscando fazer um mix de programação, sem ficar só no cinema, na pintura ou na escultura." Veio depois a idéia dos grandes eventos-âncoras, como as exposições do "Surrealismo" (2001) e de "Arte da África" (2003/2004). "Foram decisões que o banco acabou tomando a partir da grande interface que conseguiu ter com a comunidade artística e cultural", conclui o diretor do BB.