Título: Fator não econômico afeta decisão de onde investir
Autor: Bettina Barros
Fonte: Valor Econômico, 07/02/2006, Internacional, p. A9

Principais executivos de multinacionais começam a olhar além dos números macroeconômicos na hora de decidir onde investir. Segundo um relatório obtido com exclusividade pelo Valor, fatores como tradições culturais, clima e até arquitetura ganham peso cada vez maior na escolha das cidades onde os grandes grupos depositarão suas fichas no futuro. Principais destinos de Investimento Estrangeiro Direto (IED), Nova York, Londres, Paris e Hong Kong enfrentarão nas próximas duas décadas a concorrência de cidades emergentes como São Paulo, Toronto, Doha, Seul e Cidade do Cabo. O que antes era suficiente para atrair esses investimentos - incentivos fiscais, custos trabalhistas baixos e acesso a mercados - já não bastará mais. "Muitos países estão se desenvolvendo rapidamente, e isso faz com que os empresários sintam dificuldades em diferenciar as cidades somente na base desses fatores", diz Ros Kunt, do Communications Group, que organizou o relatório "O Poder dos Destinos - Porque é Importante Ser Diferente". "Por isso, os principais executivos do mundo estão prestando atenção em fatores até então pouco considerados". Para chegar a essa conclusão, a consultoria britânica contratou o grupo de pesquisa YouGov, que ouviu os principais executivos de 22 empresas multinacionais dos setores de varejo, transporte, telecoms, financeiro, TI e serviço. Questionados sobre o que vêem como principais "ativos" de um país como destino de investimento, 68% dos entrevistados responderam uma "economia forte". Surpreende, porém, o que vem depois: clima e ambiente favoráveis (67%), a hospitalidade do povo local (66%) e a forte tradição cultural (60%). Os executivos entrevistados dizem que esses fatores são mais importantes que mão-de-obra especializada (58%) e moeda local forte (30%). A arquitetura local também foi citada por mais da metade dos entrevistados (58%). "Os entrevistados nos disseram o que eles querem para o futuro, e nós montamos a lista de possíveis candidatos", diz Ros. A expectativa da consultoria é que em 2020 as cidades citadas acima sejam tão atraentes para o capital estrangeiro quanto Londres ou Nova York. "Não analisamos profundamente essas cidades, mas podemos dizer que elas são candidatas", diz Ros. Segundo ela, São Paulo "está começando a desenvolver uma identidade, uma boa mistura de fatores econômicos e não econômicos" que lhe permitirá estar entre "os dez principais destinos de IED". Os executivos dizem que nos últimos cinco, dez anos, o requisito econômico e financeiro deixou de ser único, porque as empresas buscam o que chamam de "identidade holística". Querem estar num lugar com as condições necessárias para trabalhar, mas também onde "as pessoas queiram estar". "Os que gerem negócios são pessoas que tomam decisões do ponto de vista racional e emocional. É surpreendente o que ouvimos de um de nossos entrevistados: 'é muito comum uma cidade perder um investimento para outra porque a mulher do executivo-chefe é daquela região ou porque o diretor financeiro estudou lá", diz Michael Hayamn, da consultoria. O estudo também critica a idéia de que a "economia do conhecimento" é a melhor opção para as cidades atraírem investimentos estrangeiros. "O tão alardeado conceito de nações enquanto economias do conhecimento foi uma reação ao desafio do baixo custo, mas, em geral, sua adoção em massa não atraiu tanta atenção nem trouxe o diferencial que se esperava", diz.