Título: Dólar acentua baixa à espera de isenção
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 07/02/2006, Finanças, p. C2
O dólar caiu ontem abaixo de R$ 2,20. Fechou em queda de 0,99%, cotado a R$ 2,1850, preço mais baixo desde 6 de dezembro. Desde o início do ano - em apenas 26 dias úteis - já se desvalorizou 6,02%. E o caminho para quedas mais acentuadas estará cada vez mais livre e desimpedido. O Brasil enfrenta um grave problema de sobreoferta de dólares e o governo, ao invés de implementar medidas destinadas a restringí-la ou a incentivar a demanda, só estuda providências justamente no sentido de ampliar ainda mais a oferta. É o caso da intenção de isentar o capital estrangeiro dos impostos incidentes sobre operações com títulos da dívida pública interna. É o caso também da suposta predisposição oficial de resgate antecipado de dívida externa no valor de US$ 7 bilhões. O objetivo seria o de diminuir radicalmente o risco-país (ontem a 255 pontos-base, queda de 2,3% em relação à sexta-feira), até a obtenção acelerada do grau de investimento. Este viria a se constituir no principal trunfo político à reeleição de Lula. Mas a estratégia, ao reduzir a vulnerabilidade externa, age para extravasar a liquidez em dólar. O governo não tem condições fiscais para bancar compras crescentes de moeda americana. O Banco Central já desacelerou suas intervenções desde o dia 20 de janeiro, quando passou a vender a metade do volume anteriormente colocado de contratos de swaps reversos. As aquisições diretas de dólares no mercado à vista também foram atenuadas. Em outubro, o BC comprou no pronto US$ 3,58 bilhões, em novembro foram US$ 4,18 bilhões e em dezembro, outros US$ 4,033 bilhões. E, em janeiro, o total não passou de US$ 2,6 bilhões. O BC não pode, e não quer, manter os volumes precedentes. Precisa do câmbio baixo para ajudá-lo a combater a inflação. A contrapartida do alívio cambial proporcionado por ele foi o aumento das posições vendidas estrangeiras nos mercados futuros da BM&F. Elas cresceram de US$ 8,5 bilhões na virada do ano para os atuais US$ 12,92 bilhões.
Moeda cai 6% em 26 dias úteis de 2006
O cenário é de intensificação da apreciação cambial, se nenhuma crise vier de fora. O real forte achata a inflação, permite maior redução do juro mas amplia o contágio da "doença holandesa", que já aflige os setores têxtil e calçadista. A indústria não produtora de exportáveis terá de sobreviver por meio de suas vendas ao mercado interno. A indústria pagará o preço do "investment grade" eleitoral. A reboque do que está acontecendo no câmbio, os juros só caem no mercado futuro da BM&F. As baixas foram generalizadas, sem se importar com a alta, de 4,60% para 4,66%, da estimativa de IPCA para 2006 do boletim Focus. . O contrato para a virada do trimestre - o que tem a missão de prever a próxima decisão do Copom, no dia 8 de março -, caiu de 16,89% para 16,87%. A taxa para a passagem do primeiro para o segundo semestre recuou de 16,27% para 16,25%. E o juro para a virada do ano cedeu de 15,76% para 15,68%. As apostas, quase consensuais, são de que o Copom irá cortar a Selic para 16,50% no mês que vem.