Título: Palácio do Planalto opera para filiar Jobim ao PSB e rachar o PMDB
Autor: Raymundo Costa e Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 03/02/2006, Política, p. A5
Ao mesmo tempo em que desencadeou uma ofensiva para tentar formar uma frente anti-Garotinho no PMDB, o Palácio do Planalto articula um Plano B para deixar o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, em condições de ser indicado a vice do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições: a filiação do ministro ao PSB. Jobim esteve ontem com o presidente. O encontro de ambos foi acertado no início da noite de quarta, depois de cerimônia de inauguração da nova sede do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Segundo assessores do STF, Jobim e Lula limitaram-se a debater a sucessão do ex-ministro Carlos Velloso. A amigos, disse que sua filiação a qualquer outro partido que não seja o PMDB, sigla que já integrou, seria dar razão às críticas que vem recebendo, segundo as quais, recentes decisões tomadas por ele teriam motivação política do candidato. Jobim também não pretende concorrer às prévias do PMDB, em março. A companhia de Jobim na chapa é uma espécie de sonho de consumo de Lula. A aliança formal daria daria o tempo de televisão do partido ao presidente. Lula e Jobim, no entanto, foram advertidos por pemedebistas que a composição em torno da Vice-Presidência não passa na convenção da sigla. Em conversas com parlamentares, Jobim também concluiu que o candidato a ser escolhido nas prévias provavelmente será abandonado por metade do partido, se insistir em levar a empreitada adiante. Nesse quadro, Jobim deve se preservar. A parlamentares do partido disse que deixará o STF em março, mas só depois das prévias, para em seguida se filiar ao PMDB. Com isso, Jobim espera rebater as críticas que vem sofrendo, mas o fato é que estará filiado quando o partido oficializar sua decisão em uma convenção - que é o que efetivamente vale - no mês de junho. Até lá o Planalto continuará na luta para, pela ordem, ter o PMDB na vice, mas, se não der, influir no resultado da prévia e por fim deixar o partido sem candidato. Tanto que a intenção de Lula é não demitir os ministros do PMDB após a escolha de um candidato nas prévias. Sairá o ministro que for candidato. O projeto de Lula é reforçar a ala governista para o embate interno. " O presidente está numa onda de sedução. Vai conversar com todos os governadores para conseguir o maior apoio possível para uma frente anti-Garotinho " , definiu um integrante da cúpula do PMDB, referindo-se ao ex-governador do Rio Anthony Garotinho, que já se inscreveu na prévia, assim como Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul. Lula conversou ontem com os governadores de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, e do Paraná, Roberto Requião. Estava animado com as informações antecipadas de nova pesquisa de intenção de votos a ser divulgada na próxima semana, que ratificaria sua recuperação de popularidade, conforme já detectado por outra pesquisa. Num primeiro momento, a ala governista do PMDB decidiu apostar em Rigotto para barrar o avanço de Garotinho em colégios eleitorais maiores que o do Rio de Janeiro, como o de Minas Gerais. Avaliavam que seria possível negociar mais tarde sua desistência. Agora avaliam lançar um nome do grupo, que pode ser tanto o presidente do Senado, Renan Calheiros, como o governador de Brasília, Joaquim Roriz, hipótese mais provável, se o plano for adiante. As especulações sobre a filiação de Jobim ao PSB já circulam intensamente no Congresso, especialmente entre pemedebistas. " Nós gostaríamos muito de ter Jobim no partido. Muita água ainda vai rolar debaixo desta ponte " , afirmou o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB). A filiação do presidente do Supremo ao PSB teria uma outra vantagem, segundo seus defensores no Planalto: poderia auxiliar o partido no projeto de superar a cláusula de desempenho (5% dos votos nacionais com pelo menos 2% em nove Estados). A sigla obteve 5% dos votos válidos no país na eleição passada graças à candidatura de Anthony Garotinho à Presidência.