Título: Tensos, mercados dimensionam riscos
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 03/02/2006, Finanças, p. C2

A tensão instalada ontem no mercado internacional contaminou os pregões locais. A Bovespa fechou em baixa de 3,07%, a maior desde outubro, com o índice a 37.304 pontos. O dólar avançou 0,17%, para R$ 2,2270. E o risco-país subiu 1,16%, para 262 pontos-base. Eventos díspares desencadearam o nervosismo externo, localizado sobretudo nos mercados de ações, bônus e moedas, já que os juros dos títulos do Tesouro americano de 10 anos, submersos em vasta liquidez vinda da Ásia, mal se mexeram. Foram eles: a queda da produtividade americana, rumores de elevação dos níveis de alerta contra o terrorismo nos EUA e incertezas relacionadas ao Irã. A produtividade não-agrícola americana recuou 0,60% no quatro trimestre. Como predomina nos EUA a análise de que o sossego inflacionário resulta muito dos ganhos contínuos e impressionantes da produtividade, o dado, diz o economista-chefe da Global Invest Asset, Pedro Paulo da Silveira, "levantou a suspeita de que podem surgir pressões sobre os preços de onde menos se esperava". Enquanto a produtividade se reduziu, aumentaram em 3,5% os custos do trabalho. São dados técnicos cuja relevância é exacerbada pela magnitude das posições de risco dos hedge funds.. Os dados divulgados pela manhã saíram na contramão do que os analistas previam. "O mercado havia precificado um menor crescimento do mercado de trabalho e, consequentemente, menor custo da mão de obra, na medida em que a produtividade se mantinha elevada", diz o analista Marcelo Ribeiro, da Pentágono. Mas se a produtividade começa a se desacelerar, como indicou o relatório de ontem, o medo é de que isso possa elevar o custo da mão-de-obra para cima, aumentar a inflação e puxar ainda mais para cima as taxas de juro. Esse fator negativo pega os mercados em plena crista da onda de euforia, sem parâmetros de risco. A tendência é que passem a reprecificar os ativos, sobretudo os de emergentes, em face da percepção de que o patamar de risco pode ter mudado.

Analistas questionam solidez americana

Os grandes bancos mundiais detectam e temem os sinais de que o cenário de aparente infinita liquidez pode estar mudando. O dólar vinha se depreciando, nota Ribeiro, de uma forma gradual e controlada porque havia confiança na economia americana. Essa confiança se apoiava em dois pilares. Um deles, o ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, depositário de um grande estoque de confiança do mercado global, não está mais lá. O outro era o crescimento sólido e sem pressões inflacionárias da economia dos EUA. O relatório de produtividade tornou questionável essa solidez. Preocupa o fato de os juros de dois anos dos treasuries permanecerem acima das taxas dos títulos de dez anos. Ontem, os papéis de dois anos pagaram 4,58% e os de dez, 4,56%. Para Ribeiro, a temida inverted yield curve sugere forte desaceleração da economia americana. Para o consultor Miguel Daoud, da Global Financial Advisor, ela põe em xeque a atratividade das arbitragens entre dólar e real, visando a obtenção do juro real brasileiro. Apenas o mercado futuro de juros da BM&F não se deixou arrastar pela instabilidade externa. Os contratos persistiram em queda. A taxa para a virada do primeiro trimestre recuou de 16,92% para 16,90%. O contrato para a virada do ano cedeu de 15,90% para 15,85%.