Título: Gazprom e Petrobras estudam parcerias
Autor: Cláudia Schüffner
Fonte: Valor Econômico, 09/02/2006, Empresas &, p. B8
Gás A Petrobras e a russa Gazprom, maior produtora e transportadora de gás do mundo, querem fazer negócios juntas e estudar projetos onde possam se tornar parceiras na América Latina. Uma delegação da Gazprom chefiada pelo diretor da área internacional da companhia, Stanislav Tsygankov, se reuniu durante toda a tarde de terça-feira com o diretor de Gás e Energia da Petrobras, Ildo Sauer, e executivos da área. Ontem, os russos visitaram a plataforma P-40, na bacia de Campos. A Gazprom é a maior empresa do mundo em exploração, produção, processamento e transporte de gás, com valor de mercado que já supera os US$ 200 bilhões. Para a estatal brasileira, interessam o domínio dos russos da tecnologia de exploração de gás, o transporte em alta compressão por grandes distâncias e o armazenamento de gás em silos subterrâneos. A companhia russa, que é controlada pelo governo daquele país, produziu no ano passado 547 bilhões de metros cúbicos de gás, o equivalente a 1,498 bilhão de metros cúbicos por dia. Para se ter uma idéia do gigantismo dos números, o gasoduto Bolívia Brasil, que tem capacidade de transportar 30 milhões de metros cúbicos diariamente, precisaria de 50 dias para enviar ao Brasil o que a Gazprom produz em um dia. A produção da gigante russa também é maior do que o total de reservas que a Petrobras encontrou na bacia de Santos, estimadas na época em 419 bilhões de metros cúbicos pela estatal, ainda não confirmadas. Sobre a América Latina, onde a Gazprom opera dois blocos na Venezuela, Stanislav Tsygankov admitiu interesse de negociar com a Petrobras, lembrando de forma genérica o crescimento da indústria de gás na região, que a seu ver pode, e vai, se desenvolver. "O potencial industrial da América Latina está crescendo com força e o papel do gás é muito importante em um sistema de economias em desenvolvimento rápido" , disse o executivo russo. Ildo Sauer vê espaço para a cooperação tecnológica, incluindo a otimização da operação de sistemas de transferência de gás. O diretor da Petrobras também admitiu que a expertise da Gazprom pode ser útil para o projeto que prevê a construção de um gasoduto transportando gás da Venezuela passando pelo Brasil até o Uruguai e a Argentina. O projeto pode ser analisado na próxima reunião entre as duas empresas, que será realizada em Moscou no fim de abril ou início de maio. "Ali vamos determinar quais projetos iremos concretamente desenvolver e que serão objeto de contratos e convênios específicos. Estamos em fase de namoro, que vai se converter em noivado e com certeza, na minha opinião nesse momento, poderá se converter em casamentos muito proveitosos. E casamento, que eu digo, são contratos", disse Sauer. "Achamos que podemos promover a cooperação abrangente entre as duas grandes companhias em todos os domínios possíveis que apresentem interesses de um e de outro", complementou o executivo russo. A Gazprom começou a exportar gás, em meados da década de 40, para a Polônia. Hoje leva o insumo da Sibéria para toda a Europa, sendo a maior fornecedora da Alemanha, Itália, França e Turquia, para a qual utiliza o gasoduto "Blue Stream", de 1.276 quilômetros que liga os dois países, dos quais 395 quilômetros embaixo do mar. Em 2004 ela passou a controlar a petroleira Sibneft - o que a transformou no maior agente do mercado petrolífero russo - e no ano passado exportou 147 bilhões de metros cúbicos de gás, ante 140,5 bilhões de metros cúbicos em 2004. As exportações de 2005 renderam uma receita bruta de US$ 26 bilhões, segundo Tsygankov, contra US$ 28 bilhões no ano anterior. Esses números impressionaram o diretor da Petrobras. "A Gazprom tem o sistema mais complexo, integrado e desenvolvido do mundo. Enquanto a indústria do gás no Brasil é infante, um segmento que nós traduzimos como emergente e muito longe da maturidade", disse Sauer, ressaltando que o gás natural só teve um mercado organizado no Brasil há cinco anos.