Título: Escolher um nome sem mirar um foco
Autor: Maria Cristina Fernandes
Fonte: Valor Econômico, 10/02/2006, Política, p. A5
A recuperação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos estratos de baixa renda só não foi maior que a ascensão do prefeito José Serra entre os eleitores que ganham mais de 20 salários mínimos. A manutenção dessa curva na intenção de voto de ambos abrirá um fosso que, para o diretor de pesquisas do Datafolha, Mauro Paulino, não tem paralelo nas disputas entre Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A adesão da massa da população ao Real explica o corte mais homogêneo do voto fernandista, mas o discurso anti-corrupção não substitui, no PSDB, o buraco deixado pela incorporação da estabilidade pelo petismo. Ao longo da semana, os tucanos foram expostos aos números de suas próprias pesquisas, que trazem dados ainda mais preocupantes do que os do Datafolha. Na dos tucanos, é Lula quem está na frente de José Serra no segundo turno. A explicação que ouviram é que a intenção de voto de Lula pode estar subestimada no eleitorado rural em decorrência de metodologia de pesquisa. Condutor competente da bandeira eleitoral da estabilidade, o ex-presidente revela inabilidade na busca de foco do discurso tucano. Primeiro porque se a apuração displicente do mensalão provou algo ao eleitor é que boato hoje vale fato. A lista de Furnas pode não ter procedência alguma, mas de tão bombardeado, o distinto público vê fogo em tudo quanto é fumaça. Depois porque o PSDB poderá ter dificuldades em concatenar sua convicção na ética petista da ladroagem com a recusa em processar o presidente por crime de responsabilidade. Fernando Henrique tem hoje o maior percentual de rejeição entre os tucanos, beirando a metade do eleitorado. É razoável que se sinta injustiçado, mas as pesquisas que estão à disposição de seu partido mostram que o eleitorado que o rejeita é o mesmo que olha para Lula no Planalto e vê sua própria imagem refletida. É como se esse povo que hoje se sente no poder não quisesse mais ver o príncipe por perto. Ao assumir a ponta de lança do ataque oposicionista, o ex-presidente corre o risco de transferir esta rejeição para o partido e para seu candidato. Mauro Paulino enxerga nas entrelinhas de sua pesquisa um rescaldo de maior intolerância com deslizes morais, inclua-se aí a cobrança pela coerência. Melhor colocado nas pesquisas, José Serra tem a árdua missão de encontrar uma justificativa à sua saída da prefeitura que o coloque a salvo dessa varredura de valores. Os tucanos esperam que o início dos programas partidários na televisão e, depois, o horário eleitoral gratuito, quebre o monopólio presidencial sobre o noticiário que invade todas as noites o lar dos brasileiros. Mas são lembrados, pelo histórico das disputas presidenciais brasileiras pós-ditadura, que a curva de intenção de voto dos eleitos obedece prioritariamente ao desempenho de inflação, emprego e renda. E não há sinais visíveis de que essa curva seja desfavorável ao governo em 2006.
Disputa-se a extensão e a velocidade da inclusão
O fôlego que todos os governantes ganham em janeiro tende a se esvair em abril com o anúncio do salário mínimo. Este ano o risco parece mais afastado porque se trata do maior valor real dos últimos 40 anos. Some-se a isso o efeito sobre o consumo das classes C, D e E em decorrência da duplicação, desde o início do governo, do número de famílias atendidas pelo Bolsa Família, ou da instituição do crédito consignado. Além disso, os sinais de recuperação da economia, como o melhor janeiro na indústria automobilística desde 1997, somados ao superávit primário estrondoso que o governo parece agora disposto a gastar, dão à candidatura do presidente da República uma competitividade que desnorteia o principal partido de oposição. A melhor tradução disso foi a declaração do presidente do PSDB, Tasso Jereissati, à repórter Maria Lúcia Delgado, do Valor, de que sua opinião "muda de manhã e à tarde" sobre a opção entre Serra e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Mais do que uma disputa de nomes, no entanto, o que se avizinha no PSDB é uma busca de foco. O professor de Filosofia da Unicamp, Marcos Nobre, viu, nos resultados do Datafolha, sinais da distinção partidária que começa a se operar no eleitorado. Contida a inflação, avalia, o combate à desigualdade, iniciado no governo Fernando Henrique e impulsionado por Lula, foi para o centro do debate da prioridade das políticas públicas do país. "PT e PSDB duelam em torno da amplitude e da velocidade com que o combate à desigualdade se dará", diz. "A consolidação de Lula entre os mais pobres e do PSDB entre os mais ricos pode ser uma demonstração de que os primeiros estão contentes com o ritmo que foi imposto pelo governo e os demais, não". Nobre não aposta na ética como filtro eleitoral. Diz que a classe média a invoca como motivo de rejeição a Lula para encobrir sua insatisfação com o ritmo das políticas sociais do governo. Reconhece que a identificação do eleitorado mais pobre com Lula deve-se, em grande parte, à sua capacidade de comunicação com esse público que ganha até dois mínimos e compõe metade do eleitorado nacional. "Quando Lula diz 'estou ao lado de vocês e vou fazer o máximo possível' isso aparece para a classe média como mais uma pataquada, mas ele se faz entender e parecer crível para as classes C, D e E", diz. É nessa empatia, avalia, que o PSDB tem dificuldades para disputar de igual para igual. Há ainda a hipótese de que Lula, inviabilizando-se entre os chamados formadores de opinião, veja-se em apuros mais tarde. É verdade que o voto dos mais pobres é mais volátil do que entre os mais ricos, mas já foi destroçado o conceito de que a clientela mais carente segue o voto de quem lê jornal. Os mais pobres têm nas lideranças comunitárias, no organizador de peladas, nas donas de casa que cuidam dos filhos da vizinhança, seus próprios formadores de opinião. Nas três vezes em que perdeu a disputa pela Presidência, Lula era forte na classe média e perdia na arraia miúda. Só chegou lá porque foi votado de A a Z. Agora o comportamento eleitoral de sua primeira década de disputas se inverte e, assim, o sistema partidário brasileiro tem a chance de dizer a que veio.