Título: Contaminação afeta a pesca e o turismo
Autor: Francisco Góes
Fonte: Valor Econômico, 14/02/2006, Opinião, p. A14
Os pescadores artesanais da Ilha da Madeira, na vizinhança da Ingá Mercantil, reclamam que a poluição gerada pela ex-produtora de zinco reduziu, ao longo dos anos, os cardumes de peixes na Baía de Sepetiba. A acumulação de metais pesados nas águas obriga os pescadores a navegar cada vez mais longe na Baía, protegida do mar pela restinga da Marambaia, atrás da sua subsistência: sardinhas, corvinas, robalos, arraias, bagres, enchovas, sororocas, siris e camarões. Não bastasse o vazamento de resíduos tóxicos da Ingá na Baía de Sepetiba quando chove forte, como em janeiro, os pescadores enfrentam a concorrência das traineiras que viajam milhas e milhas náuticas, desde diferentes portos do país, para praticar a pesca predatória dentro da Baía, o que é proibido por lei. "Recentemente o Ibama pediu uma lancha da Polícia Federal para fiscalizar a pesca predatória na Baía, mas faltava diesel para a embarcação funcionar", conta Carlos do Nascimento, representante da Associação dos Pescadores Artesanais da Ilha da Madeira (Apaim). O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) foi procurado várias vezes pelo Valor para falar sobre os efeitos da Ingá na pesca na Baía de Sepetiba, mas os técnicos do órgão não foram encontrados. Maria do Carmo Eller Lima, presidente da Associação dos Pescadores e Lavradores da Ilha da Madeira (Aplim), diz que o despejo de metais pesados da falida produtora de zinco não só reduz a pesca como diminui o turismo na região. Em períodos de vazamento da Ingá, os pescadores da Ilha têm dificuldades de vender o peixe e desaparecem os turistas que alugam navios para passear na Baía, diz Maria do Carmo. No início deste mês os pescadores da Ilha da Madeira fizeram uma "barqueata" na Baía de Sepetiba. Os pescadores têm uma ação na Justiça pedindo indenização pelos prejuízos causados pela Ingá Mercantil. "Qualquer reparação ambiental do dano causado pela Ingá tem de incluir os pescadores", diz o ambientalista Sérgio Ricardo, que participa das discussões sobre solução para o passivo ambiental da companhia. O ex-presidente do BNDES Carlos Lessa demonstra preocupação com a situação da Ingá. "A Baía de Sepetiba é uma das mais belas baías da costa brasileira. Poluir isso é uma coisa criminosa. Toda aquela região tem uma vocação turística espetacular e colocar metal pesado lá, é destruir a região. Há grande impacto sobre os pescadores e sobre as potencialidades turísticas. Isso me irrita muito", diz Lessa. (FG com Janaína Vilella, do Rio)