Título: Ceará planeja usar ondas do mar para gerar eletricidade
Autor: Cláudia Schüffner
Fonte: Valor Econômico, 14/02/2006, Empresas &, p. B8

Energia Dois módulos com capacidade para ofertar 50 kilowatts (KW) serão instalados perto de Fortaleza

Líder na geração de energia eólica no Brasil, com geração de 174 megawatts (MW) vendidos, o Ceará vai receber o primeiro projeto de geração de energia através das ondas do mar até o fim do ano. O projeto foi desenvolvido pela Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com orçamento inicial da UFRJ e depois com financiamento da Eletrobrás e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A usina piloto utiliza a tecnologia desenvolvida no Rio e começa a ser construída em março, no porto de Pecém, perto de Fortaleza. Serão instalados dois módulos com capacidade de gerar 25 kilowatts (KW) cada, financiados pelo governo do Ceará. A expectativa de Segen Stefen, professor do Programa de Engenharia Oceânica da Coppe é de que até o fim de 2006 os dois módulos entrem em operação. A geração de energia a partir de ondas do mar foi o tema de um seminário realizado ontem com patrocínio da Coppe, do consulado britânico e outras entidades especializadas. O projeto do Ceará prevê a construção de 20 módulos que terão potência instalada de 500 KW. Segundo a Coppe, esse volume de energia é suficiente para atender 200 residências, ou até 2.000 casas fora do horário de pico do consumo. Trata-se de volumes pequenos e com preço ainda elevado, mas como ressaltou o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, "seria um crime não entrar nesse segmento agora", o que ele avalia ser uma questão "para muitos anos à frente". Ian Bryden, professor da universidade de Edimburgo, na Escócia, destaca que o governo do Reino Unido começou a financiar a geração de energia por ondas na década de 70, durante o "choque do petróleo", mas reduziu os recursos na década de 80. Bryden lembra que apenas com a perspectiva de voltar a ser importar líquido de petróleo e gás - o que deverá ocorrer em dois anos por causa da queda da produção de petróleo e gás no Mar do Norte britânico - foram ampliados os financiamentos governamentais para o desenvolvimento de fontes alternativas, incluindo das ondas. O professor calcula que o Reino Unido já investiu entre 20 milhões e 30 milhões de libras na energia por ondas, tendo capacidade instalada de aproximadamente 750 KW. Isso é suficiente para atender 500 residências nas Ilhas Órcadas, na Escócia. Bryden estima que dentro de dois anos serão produzidos entre 2 MW e 5 MW de energia por ondas no Reino Unido. O lugar onde se pretende centralizar toda a comercialização dessa energia ficará na Cornualha, já que as Órcadas, onde fica a atual produção, não tem mercado para absorver toda a produção. A tecnologia usada no gerador de energia por ondas das Ilhas Órcadas recebeu o nome de "Pelamis". Ele é fabricado pela Ocean Power Delivery, que acaba de vender três geradores para um consórcio português, por US$ 9,8 milhões. O projeto de ondas do Ceará, primeiro da América do Sul, já recebeu investimentos de R$ 775 mil, e a estimativa de Stefen é que sejam necessários mais R$ 2, 5 milhões para concluir a instalação dos 18 módulos restantes.