Título: Produtividade industrial cresce menos em 2005
Autor: Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 16/02/2006, Brasil, p. A3

Conjuntura Aumento foi de 1,9%, bem inferior aos 6,3% verificados em 2004

A indústria de transformação brasileira aumentou sua produtividade em 1,9% ao longo de 2005. Esse resultado representa uma forte desaceleração quando é comparado ao desempenho do ano anterior (alta de 6,3%), mas pelo segundo ano consecutivo o ganho de eficiência foi alcançado pelo crescimento simultâneo da produção e do emprego industriais - 3,1% e 1,1%, respectivamente, segundo dados divulgados ontem pelo IBGE. Em 2003, a produtividade subiu apenas 0,7% e foi apoiada na queda da ocupação e da atividade industrial. Na análise de Paulo Gonzaga, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o crescimento menor da produtividade já era esperado. Segundo ele, no início de um ciclo de expansão econômica, como o visto em 2004, a produção costuma crescer muito acima do nível de emprego. "A ocupação sempre responde com defasagem", diz. Além disso, "este já é o segundo ano de crescimento industrial e os números estão mais fracos. Para a eficiência crescer como em 2004, a produção precisaria estar mais aquecida", completa. A expansão da produtividade foi encabeçada pelo setor de calçados, com ganho de 9,5%. No entanto, não é um dado a ser comemorado, pois a produção e o emprego nesse ramo sofreram quedas de 3,2% e 11,7%, respectivamente. Outros setores que sofreram com a valorização do câmbio também aumentaram sua produtividade às custas de menos produção e encolhendo o quadro de funcionários. Foi o caso da indústria de madeira, na qual a produtividade ficou 5,6% maior, mas a produção cedeu 4,5% e o emprego caiu 9%. Por outro lado, no setor de máquinas e aparelhos eletrônicos e de comunicação, a atividade avançou mais de 14%, enquanto o número de ocupados assalariados teve um incremento de 3,75%. Com isso, o ganho de produtividade foi de 8%. "Esse é um bom resultado, pois nesse caso não houve redução do emprego", avalia André Macedo, economista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2005, o aumento do emprego industrial foi concentrado em 10 das 18 atividades pesquisadas pelo IBGE. Só os ramos de alimentos e bebidas e meios de transportes contribuíram respectivamente com 1,29% e 0,59% para a alta de 1,06% no nível de emprego geral. Em contrapartida, as indústrias de vestuário, calçados e couro, madeira, borracha, entre outras, impactaram negativamente a ocupação. Em 2004, o emprego subiu 1,9%. "Quem tem a produção muito apoiada nas vendas externas sofreu bastante", diz Macedo. De acordo com o economista, a forte valorização do real ante o dólar ocasionou dois problemas. De um lado, os produtos brasileiros ficaram menos competitivos no mercado externo. De outro, precisaram enfrentar a concorrência de chineses e indianos internamente. A folha de pagamento, por sua vez, cresceu 3,4% no ano passado, uma alta superior a da produção, indicando que o salário foi um componente de pressão de custos industriais em 2005. A alta poderia ter sido maior se não fossem as quatro quedas consecutivas no indicador desde setembro e que trouxeram perdas de 4,8% nesse período. Esse aumento foi sustentado novamente pelos setores de alimentos e bebidas (9,9% de aumento na folha) e meios de transporte (7%). Ao mesmo tempo, os ramos de papel e gráfica e calçados contribuíram de forma negativa, pois viram a folha encolher 4,7% e 9,1%, respectivamente. Na comparação por regiões do país, Minas Gerais (3,9%), Região Norte e Centro-Oeste (3,9%) e São Paulo (2,3%) exerceram os principais impactos positivos no nível de ocupação, enquanto Rio Grande do Sul (-6,3%), Rio de Janeiro (-1,0%) e Espírito Santo (-0,7%) se sobressaíram com os piores desempenhos regionais. Em Minas, os destaques ficaram com os produtos de metal (23,5%) e alimentos e bebidas. No Rio Grande do Sul, o resultado negativo foi fortemente impactado pela redução de 20% no emprego no setor de calçados e artigos em couro. A análise dos dados trimestrais, que dão melhor noção da tendência dos indicadores, não é muito animadora. "Na comparação mais imediata, os números mostram que a indústria não está mais empregando, pelo contrário, já está dispensando gente", afirma Júlio Sérgio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Nos últimos três meses de 2005, segundo dados com ajuste sazonal, a ocupação sofreu queda de 0,4%, após ceder 0,3% no trimestre anterior. Segundo Macedo, do IBGE, o padrão de crescimento trimestral no ano passado foi inverso ao de 2004, pois veio desacelerando de forma contínua. Para Almeida, "por mais que se queira tratar de outros temas da economia brasileira, é impossível não mencionar as taxas de juros muito altas e a grande valorização do real como as principais causas do processo de retração industrial que ocorre no Brasil e que condiciona esses resultados do emprego no setor". Entretanto, para os próximos meses há um dado que pode indicar recuperação no emprego. O número de horas pagas, que funciona como indicador antecedente, cresceu 0,4% no último trimestre de 2005, após dois meses de queda e um de estabilidade. "Como o aumento das horas pagas precede novas contratações, isso pode indicar uma mudança de sinal na indústria", ressalta.