Título: Para conter forte tensão no Haiti, Brasil defende a vitória de Préval
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 16/02/2006, Internacional, p. A11
A instabilidade crescente no Haiti, apesar da realização das eleições presidenciais, começa a preocupar o governo brasileiro e de outros países envolvidos no processo de democratização do país. Temendo a falta de segurança para realizar um eventual segundo turno no Haiti, o Brasil sugere que os demais candidatos reconheçam a vitória de René Préval, como forma de reduzir a tensão, que cresceu nos últimos dias com denúncias de fraude que visaria prejudicar Préval. Com quase todos os votos apurados, Préval, de centro-esquerda e próximo dos ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, lidera com quase 50% dos votos, o que forçaria uma nova disputa com o segundo colocado, Lesli Manigat. "O ideal seria se os demais candidatos reconhecessem a derrota e o comitê eleitoral declarasse Préval vencedor", defendeu o assessor especial da Presidência brasileira para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia. A proposta, contudo, segundo Garcia, não pode ser apresentada oficialmente. "Não podemos interferir, nem é nosso interesse, no processo de eleição interna. Se isso acontecesse, estaríamos colocando abaixo um processo de democratização que dura três anos", reconheceu. Garcia diz que a demora na definição das eleições haitianas pode provocar um "transbordamento popular", fazendo o país retroceder ao caos que culminou com a deposição do ex-presidente Jean Bertrand Aristide. Esse cenário também retarda a saída das tropas brasileiras do Haiti. "Não podemos trabalhar com tempo cronológico, mas político. As tropas da Minustah (força de paz da ONU) só podem deixar o país quando houver condições políticas para isso", reforçou Garcia. De acordo com o assessor especial, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem citado o episódio de Ruanda para reforçar a tese da permanência das tropas no Haiti. "A força de paz da ONU deixou Ruanda antes da consolidação da transição e houve um genocídio", lembrou. Para o assessor especial da Presidência, três fatores são fundamentais para a consolidação da paz no Haiti. O primeiro seria o fortalecimento das forças políticas locais - o que seria reforçado com a eleição de novo presidente e de um novo Congresso (haverá segundo turno nas eleições parlamentares). O segundo vetor seria um forte apoio político internacional, o que não significa necessariamente a permanência das tropas da ONU. O terceiro ponto seria um auxílio financeiro para ajudar na reconstrução do país. "Antes, ainda havia a desculpa de que era um governo de transição. Agora, teremos um novo governo, respaldado pelas urnas". Mas a conclusão do processo eleitoral no país pode estar longe do fim. Uma deputada democrata dos EUA acusou ontem o governo americano de participar da "fraude nas eleições" do Haiti contra Preval - uma acusação que poderia implicar os EUA na instabilidade pós-eleitoral e contra os interesses brasileiros. "Esta tentativa óbvia de fraudar as eleições no Haiti é descarada e vergonhosa. É absolutamente intolerável que os inimigos do presidente Jean Bertrand Aristide, as elites contra o partido Esperança e o governo dos EUA roubem tão abertamente estas eleições", disse a deputada democrata da Califórnia, Maxine Waters, citada pela agência de notícias "Ansa". "A comunidade internacional é testemunha de mais um golpe contra o povo do Haiti por parte das mesmas forças que são responsáveis pelo caos e pela desestabilização neste pequeno país", acrescentou. Os últimos dados divulgados pelo conselho eleitoral haitiano indicam que, com 90% dos votos apurados, Préval tem 48,76% dos votos. O candidato precisaria de 50% mais um dos votos válidos para evitar o segundo turno. Préval, que já foi presidente do Haiti entre 1996 e 2000, acusou as autoridades eleitorais de cometer fraudes para impedir a sua vitória no primeiro turno. Milhares de eleitores têm saído às ruas para exigir que ele seja declarado vitorioso, em manifestações que já deixaram pelo menos dois mortos. O governo interino proibiu a publicação dos resultados do pleito da semana passada até que uma investigação que comprove sobre se houve ou não fraude eleitoral seja finalizada.