Título: Mantega promete agilizar liberações do BNDES
Autor: Chico Santos e Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 22/11/2004, Brasil, p. A-4

O novo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Guido Mantega, sinalizou ontem que o banco será o mais ágil possível na aprovação de operações, mas manterá uma análise acurada dos projetos. Mantega encontrou-se com o presidente demissionário do banco, Carlos Lessa, no velório do economista Celso Furtado, que morreu sábado, e deverá voltar a reunir-se hoje com Lessa, no Rio. O Valor apurou que a posse de Mantega deve ocorrer no dia 29. Hoje o vice-presidente do BNDES, Darc Costa, concederá entrevista na sede do banco. Ontem, Darc reiterou que deixará o cargo junto com Lessa. Darc também não deu pistas sobre o seu futuro: "Ainda não sei o que vou fazer. Sou aposentado", esquivou-se. Técnicos do banco, críticos da gestão de Carlos Lessa, ouvidos pelo Valor, disseram que dificilmente o novo presidente do BNDES terá sucesso em sua disposição de reduzir os prazos de aprovação de projetos praticados pelo banco estatal, a não ser que haja uma modificação estrutural nos métodos de análises o que, mesmo assim, só surtiria efeito a longo prazo. A alegação de demora na análise de projetos é uma das principais críticas feitas à gestão de Lessa e um dos fatores que levaram ao seu desgaste. Segundo esses técnicos, a única forma de reduzir os prazos dentro da metodologia atual é reduzindo também o rigor da análise, o que poderia resultar em pesadas perdas no futuro. Hoje, para analisar um projeto de empréstimo direto (sem intermediação financeira), o BNDES pode demorar até sete meses (210 dias). Os técnicos admitem que alguma coisa de demora pode ser creditada à má vontade que alguns setores do banco vinham crescentemente desenvolvendo contra a gestão que está saindo. Os especialistas do banco dizem que o maior problema da metodologia de análise do BNDES é que ela foi elaborada na década de 70, uma época na qual os projetos eram poucos e muito grandes. "Não foi um método feito para operar no picado", diz um desses analistas. Segundo ele, a adaptação da metodologia aos padrões atuais da demanda exigiria que o banco fizesse um rigoroso trabalho de aperfeiçoamento, escolhendo um ou dois setores para começar as mudanças, generalizando a nova metodologia aos poucos. Dessa forma, eles estimam que o prazo poderia cair para até para dois meses. "Mas isso exigiria uma carga muito pesada de trabalho que eu não sei se a burocracia do banco está disposta a enfrentar", disse o analista. Se não tomar a decisão de enfrentar esse trabalho ele disse temer que a gestão de Mantega no banco acabe sendo um retrocesso, com a elitização crescente do crédito, em prejuízo da pequena e média empresa. Eles avaliam ainda que, para obter retorno de curto prazo, já que o governo está a dois anos do final, Mantega terá que concentrar esforços no setor de infra-estrutura, especialmente na melhoria da malha viária, e nos segmentos exportadores. Apesar de já acompanhar de perto o trabalho do banco - Mantega pertence ao conselho de administração do BNDES, presidido pelo ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan - o ex-ministro e Lessa discutirão hoje assuntos como o andamento dos projetos e o cumprimento do orçamento deste ano. A despedida de Lessa do BNDES, na sexta-feira, foi marcada por uma manifestação de apoio a sua gestão. Representantes da esquerda carioca, como os deputados federais Chico Alencar (PT) e Jandira Feghali (PC do B) e o deputado estadual Alessandro Molon (PT), e de entidades de classe se reuniram na porta do banco em um ato de desagravo. Ao discursar para as cerca de 200 pessoas presentes, Lessa afirmou que o "presidente Luiz Inácio Lula da Silva está "sendo enganado pela elite brasileira e mundial." (Colaboraram Francisco Góes e Vera Saavedra Durão)