Título: Banco lucra mais e paga menos aos investidores
Autor: Janes Rocha
Fonte: Valor Econômico, 16/02/2006, Finanças, p. C3
Crédito Margem líquida de 8,1% é uma das mais altas dos emergentes
Ao mesmo tempo em que ganham menos com juros, os bancos estão também gastando menos com a remuneração de seus aplicadores e lucrando cada vez mais. É o que revela um estudo realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), ligada à Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Patrocinado pela Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban), o trabalho intitulado "Demonstração do Valor Adicionado (DVA)" foi coordenado pelos professores Eliseu Martins e Iran Siqueira Lima. O DVA foi divulgado junto com o estudo "Apuração do Spread Bancário", de autoria dos professores Alexandre Assaf Neto e Nelson Carvalho. Em sua terceira edição, o trabalho de Assaf e Carvalho ficou mais representativo se comparado à primeira versão, ao analisar 11 bancos que respondem por 75,8% dos ativos e 76,4% dos créditos. A conclusão mais importante, porém, não se alterou significativamente: os autores reafirmam que o ganho líquido dos bancos com operações de crédito, de 8,1%, é "muito menor do que se imagina". Segundo a analista de bancos de mercados emergentes, Victoria Miles, do JP Morgan em Londres, essa taxa é uma das mais altas entre os bancos dos países emergentes, cuja média é em torno de 5%. A margem líquida dos bancos comerciais em operações de crédito no México e na Rússia, por exemplo, varia entre 4% e 5% e é ainda mais baixa entre os bancos asiáticos, afirma Miles. No estudo sobre DVA, Martins e Siqueira Lima analisaram os balanços de todas as instituições financeiras do país a partir de dados do Banco Central. Conforme mostram as tabelas ao lado, a receita dos bancos com juros cai de 81,4% em 2002 para 68,7% no 1º semestre de 2005, ao mesmo tempo em que as receitas com serviços quase dobram, de 16,6% para 31,3%. O estudo do DVA contraria alguns argumentos dos bancos para os altos juros e spreads cobrados dos tomadores de empréstimos: as elevadas inadimplência e tributação sobre o crédito. Martins e Siqueira Lima demonstram que a inadimplência tem se mantido entre entre 4,8% e 5,8%, com pequena oscilações nos últimos três anos. A tributação de fato subiu, de 6% em 2002 para 10,1% em 2005, mas ainda é um dos itens de menor peso na composição das despesas da indústria bancária. "O setor financeiro é um dos menos tributados do Brasil", disse Martins. Depois da despesa com juros - que baixou de 49,1% para 33,1%, os maiores gastos dos bancos, com pessoal e operacional, é que tiveram aumento mais expressivo - de 10,7% para 12,4% e de 21,4% para 28,4%, respectivamente. O economista da Febraban, Roberto Troster, reconheceu que esses dados são relacionados com baixa eficiência e que isso é uma preocupação dos bancos, que têm feito um trabalho intenso de melhoria desses indicadores.