Título: Brasil é o maior parceiro da Rússia na América Latina
Autor: Guerman Gref
Fonte: Valor Econômico, 22/11/2004, Opinião, p. A-16

O Brasil é o país economicamente mais desenvolvido da América Latina, um parceiro comercial tradicional da Rússia, além de ser líder entre os outros países do continente no intercâmbio comercial com a Rússia. Os órgãos institucionais de cooperação econômica e comercial russo-brasileira são a Comissão de Alto Nível Brasil + Rússia, co-presidida por Mikhail Fradkov, presidente do governo da Federação Russa, e pelo vice-presidente do Brasil, José Alencar, e a Comissão Intergovernamental Rússia-Brasil (Cirb) para a cooperação econômico-comercial e técnico-científica. A Rússia tem poucos parceiros estrangeiros para os quais dê tanta importância como ao desenvolvimento das relações com o Brasil. Importa assinalar que em função de causas objetivas, no início dos anos 90 o intercâmbio comercial reduziu-se sensivelmente em todos os parâmetros e só a partir de 1994 começou a registrar-se um progresso. Desde aí o Brasil passou para o primeiro lugar no intercâmbio da Rússia com os países da América Latina e entrou na lista dos 30 principais parceiros da Rússia no mundo. De acordo com as estatísticas alfandegárias, no período entre 1995 e 2003, o intercâmbio comercial registrou aumento equivalente a 80%. Em nove meses de 2004 - segundo as estatísticas alfandegárias brasileiras - o volume do intercâmbio constituiu US$ 1,7 bilhão. As exportações russas estão avaliadas em US$ 575 milhões e as importações, US$ 1,16 bilhão. Os dados apresentados pela alfândega russa dão valores bastante menores. Este fenômeno pode explicar-se pela elevada proporção dos intermediários americanos e europeus que intervêm nas operações de exportação russas. Dados russos baseados no registro dos despachos diretos revelam que as exportações totalizaram US$ 254,7 milhões em 2003, ao passo que pelos cálculos brasileiros, cuja metodologia se baseia no critério de origem da mercadoria, o mesmo índice se traduziu em US$ 555 milhões. Depreende-se assim que, pelos resultados de 2003, o intercâmbio comercial poderá aproximar-se de US$ 2 bilhões. Nas nossas relações comerciais existe uma especificidade: o Brasil vê principalmente na Rússia um mercado de escoamento de seus produtos, e não como país fornecedor. É justamente isso que explica este desequilíbrio manifestado nas relações comerciais. Gostaria de deter-me em questões relacionadas com a cooperação na área de investimentos entre nossos países. Infelizmente, neste domínio não se tem registrado ainda o progresso devido. Os empresários brasileiros revelam muita cautela quando se trata de investimentos na economia russa, embora tenhamos vertentes promissoras como a indústria de alimentos e de automóveis. Hoje, estão em vias de negociação os projetos seguintes: 1) A construção na Rússia de unidade industrial para a fabricação de congelados, pré-fabricados de carne e salsicharia a partir de carne importada do Brasil; 2) A criação na Rússia duma rede de restaurantes de cozinha brasileira com participação de capital brasileiro; 3) O lançamento no Brasil de uma joint venture para a extração e transformação de resina de pinheiro; 4) A exploração no Brasil de uma jazida de bauxita e a construção subseqüente de uma fábrica de alumina;

A Rússia não está satisfeita com saldo comercial negativo e volume insignificante das exportações

5) A montagem no Brasil de automóveis russos da marca Niva; 6) O lançamento no Brasil da produção de turbinas a gás. Como ministro de Desenvolvimento Econômico e Comércio da Rússia vejo bastantes perspectivas no desenvolvimento da cooperação econômica e comercial Rússia-Brasil, na ampliação da exportação russa de máquinas e equipamentos. As companhias e empresas de nossos países fazem negociações dinâmicas sobre a cooperação em áreas como a energia elétrica, petróleo e gás e transportes. Gostaria de acentuar o ramo de construção de automóveis. Continuam as negociações com as montadoras Volvo e a Marcopolo para lançar na região de Kaluga a montagem de ônibus Volvo com carroçaria brasileira. É patente o interesse pela ampliação da cooperação com a Marcopolo no lançamento da produção de carroçarias no local de montagem. Estou seguro que as relações econômicas e comerciais entre os dois países serão ainda mais ampliadas e diversificadas graças à exposição russa de produtos industriais e tecnologias de ponta, que ocorreu na semana passada em São Paulo, no âmbito da exposição internacional de altas tecnologias e produtos industriais, a Brasiltec 2004. A Rússia expôs suas tecnologias avançadas em áreas como a ciência de materiais, construção de máquinas, ramo aeroespacial, biotecnologias, meios de resgate de pessoas em situações de emergência, sistemas de segurança, entre outras. Nos últimos cinco anos, a economia russa mostra uma dinâmica positiva, estável e significativa. Por isso, o impressionante saldo comercial negativo, somado ao predomínio das matérias-primas e ao volume insignificante das exportações russas para o Brasil, não podem satisfazer a liderança russa. Nós pretendemos, portanto, utilizar com maior eficácia os mecanismos de desenvolvimento econômico, as imensas potencialidades do complexo técnico-científico da Rússia para oferecer ao Brasil os nossos produtos altamente tecnológicos e serviços em tais domínios como a maquinaria, a investigação e exploração do espaço, a energia atômica, biotecnologias, eletrônica e indústria aeronáutica. Neste contexto, considero que a cooperação com o Brasil na investigação e exploração do espaço tem grande futuro. Durante a visita do presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, ao Brasil deverá ser firmado o Memorando de Entendimento entre a Agência Federal Espacial da Rússia e o Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil, especificando os domínios e áreas de cooperação na esfera espacial. Os dirigentes dos departamentos russos e o mundo empresarial da Rússia esperam um grande progresso da próxima visita do estadista russo. Esta visita deverá dar um novo impulso às nossas relações econômicas, contribuir para a solução de muitos problemas para o bem dos nossos países e povos.