Título: Começa nova rodada para fixar preço do minério
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 20/02/2006, Empresas &, p. B1

Siderurgia

O enfrentamento entre mineradoras e siderúrgicas para fixar o preço do minério de ferro, para 2006, parte esta semana para o quarto round. O cenário este ano é mais difícil. As siderúrgicas estão fazendo jogo duro por conta da queda ocorrida nos preços do aço, de 35%, somente na China. Nesse cenário, as usinas de aço não estão dispostas a pagar pelo minério mais do que 5% a 10% de aumento. Do outro lado da mesa, as mineradoras, que teriam pleiteado de 25% a 30% no início, agora trabalhariam com 15%, segundo o mercado. A dificuldade nas discussões influenciou o comportamento das ações das companhias do setor de mineração e siderurgia. As ações da Companhia Vale do Rio Doce tiveram uma das piores performances da Bovespa até agora influenciadas em parte por causa dessa peleja. Os papéis da mineradora subiram 2,9% no ano ante uma alta de 15% do Ibovespa. Já as ações das siderúrgicas CSN, Usiminas e Gerdau, valorizaram 35%, 41% e 20%, respectivamente. Nesse quadro mais conservador os analistas de mercado também estão mais cautelosos. O analista do Credit Suisse, Roger Downey, trabalha com 15% de alta no minério, o mesmo percentual de Paolo di Sora, do Itaú. A Merrill Lynch estima 18%. Já Rodrigo Barros, do Unibanco, calcula em 25%. A entrevista do presidente da siderúrgica européia Arcelor, Guy Dollé, ao EuroBusiness Media, semana passada, confirma as dificuldades. "Os produtores de minério querem alta de preço e nós (siderúrgicas) temos pedido redução. Penso que a chave desse jogo será a China. É por conta da China que os preços têm subido e agora ela começou uma guerra interna de preços. Nós precisamos conseguir uma redução nos reajustes do preço do minério para melhorar nossos resultados. Acredito que nos próximos meses a China vai fixar uma referência de mercado (ou seja, ditar o preço)." A Vale não quis comentar as declarações de Dollé. Na semana passada, o governo chinês anunciou que vai aumentar em 34 milhões de toneladas sua produção de aço este ano, totalizando 383 milhões de toneladas, ante 349 milhões em 2005. Downey e Barros estimam aumento entre 41 milhões a 50 milhões de toneladas, respectivamente para a produção de aço na China este ano. Andrea Weiberg, da Merrill Lynch, projeta aumento na produção entre 45,37 milhões de toneladas a 55,9 milhões. Os analistas acham que os chineses blefam ao estimar para baixo. As projeções de crescimento nas importações de minério de ferro pelos chineses são também elevadas. Sora trabalha com estimativa de 320 milhões de toneladas ante 270 milhões de toneladas importadas em 2005 pela China. Downey prevê 330 milhões. Andrea projeta 17% a mais que em 2005. Apesar desses números robustos, o analista do Itaú está mais conservador em relação ao resultado das negociações. Ele acredita que as conversas estão mais travadas do que o mercado esperava. " O minério não vai subir tanto este ano porque o aço caiu muito. Estamos lidando com uma cadeia de valor. O aumento certamente virá como fruto do aperto entre oferta e demanda, mas não dá para ser mais de 15%, pois o aço na China caiu 35%. As mineradoras não vão forçar um aumento muito maior, pois estariam matando a sua galinha dos ovos de ouro", destacou. O analista do Itaú trabalha com uma perspectiva de um mercado de minério de ferro firme até o ano que vem. Mas não acredita que em 2007 haja subida de preço do insumo. A partir de 2008, a oferta de minério das três gigantes BHP, Rio Tinto e Vale estará mais folgada e a CSN deverá estar produzindo mais minério. "Em 2008 os preços do minério devem começar a cair, acredito que caiam 15%."