Título: Para Serra, Lula promove "populismo cambial"
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 21/02/2006, Política, p. A12

Eleições Prefeito critica desoneração de investimentos estrangeiros

Disposto a manter a estratégia de evitar declarações públicas que possam aumentar ainda mais a temperatura da disputa interna no PSDB pela definição da candidatura à Presidência da República, o prefeito de São Paulo, José Serra, aproveita a clara rotina de candidato na capital para atacar o governo federal com críticas à política econômica e cambial. Ontem, o prefeito acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de fazer "populismo cambial exacerbado no Brasil" e defendeu a atuação de governo no câmbio, o que, segundo ele, não significaria uma política de intervenção. "Claro que eles deveriam atuar. O câmbio a R$ 1,90, a R$ 2,00, é uma irresponsabilidade histórica e nós vamos pagar um preço altíssimo no futuro", afirmou, ao participar de uma operação contra a poluição visual em Vila Prudente, na zona leste da capital. O alvo preferencial das críticas de Serra foi a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de isentar de Imposto de Renda e CPMF os investimentos estrangeiros em títulos públicos. "O que eu defenderia, e defendi no Senado, é eliminar a tributação sobre investimentos em títulos públicos em geral, independente da origem do capital", justificou. Segundo o prefeito, se o governo federal optasse por isentar de tributação todos os investimentos financeiros feitos em títulos públicos, o efeito sobre a taxa de juros seria automático. "Agora, com o que eles estão fazendo, não abaixa os juros, perde-se receita, e estimula-se a saída de capital. Não consigo ver vantagem", afirmou. A isenção concedida pelo governo, acrescentou, vai sobrevalorizar ainda mais a moeda. "É um abuso. Agora vamos exportar turistas sem parar para Miami", disse. Serra considera que a medida é "fruto do erro da política econômica e do oportunismo eleitoral". Já a decisão do governo federal de reduzir os encargos previdenciários para trabalhadores domésticos não foi contestada pelo prefeito. Aliados de Serra admitem que está elevado o tom da disputa entre os tucanos pela candidatura dele ou do governador Geraldo Alckmin. Ainda assim, garantem que o embate não ocorre diretamente entre os dois, mas sim entre as respectivas equipes. Para os serristas, a direção nacional do PSDB terá capacidade de buscar um consenso. Alckmin conversa hoje com dirigentes do PSDB, entre eles o presidente do partido, Tasso Jereissati e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O cenário provável é que o prefeito se desincompatibilize (deixe a prefeitura para concorrer) em 28 de março. As últimas pesquisas qualitativas feitas pelo PSDB, segundo os próprios tucanos, mostram que a resistência dos paulistas ao afastamento de Serra da prefeitura caiu. O discurso dos aliados até já está pronto. "Se por acaso o prefeito sair, se o Serra sair, o governo Serra continua. Não haverá mudança de rumo, nem de conduta, nem de comportamento. Se o prefeito natural for o Gilberto Kassab (vice-prefeito, do PFL), o governo Serra continua", disse o secretário de Coordenação das Subprefeituras, Walter Feldman, que deixa o cargo em 28 de março para disputar a reeleição a uma vaga na Câmara dos Deputados. O prefeito, na campanha federal, pretende mostrar os êxitos de sua na gestão em São Paulo. Os eixos do discurso serão saúde e planejamento urbano. Nos próximos dias, Serra deverá assinar uma série de portarias e editais. A prefeitura vai contratar 36 caminhões especialmente desenvolvidos para a despoluição visual, que injetam tinta em 18 metros por minuto, ao custo mensal de R$ 18 mil cada. Será anunciado em breve um pacote anti-corrupção, para regulamentar o funcionamento de estabelecimentos comerciais sem alvará. A idéia é cadastrá-los e dar um prazo de 180 dias para a regularização. Em outra frente, a prefeitura de São Paulo vai inaugurar, até junho, mais 20 sedes de Assistência Médica Ambulatorial (AMA). Trata-se de um modelo de saúde desenvolvido sob a gestão de Serra, com postos de atendimentos médicos de baixa complexidade, próximos aos hospitais públicos. Ontem, o prefeito participou da inauguração da vigésima AMA, também em Vila Prudente. "Tinha tanta coisa estragada em São Paulo. A saúde era a mais de todas", discursou.