Título: Tensão na Nigéria pressiona o petróleo
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 21/02/2006, Internacional, p. A13

Rebeldes nigerianos seqüestraram nove trabalhadores estrangeiros e atacaram instalações de petróleo do país. Por causa dos ataques, a Nigéria, oitavo maior exportador do produto no mundo, já teve um corte de 20% nas exportações. A ameaça de que a onda de ataques continue fez com que o preço do petróleo desse um salto no mercado internacional. O barril tipo Brent, negociado em Londres, fechou em alta de 2,76%, cotado a R$ 61,54. Não houve negociação em Nova York por ser feriado. Há o temor de que a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) não tenha margem suficiente para suprir uma eventual quebra de produção de um de seus associados. Não estava claro ontem se os rebeldes teriam capacidade de continuar sua ofensiva ou se o governo conseguiria controlar a situação logo. Analistas do Eurasia Group dizem que os mercados devem esperar por um período mais prolongado de conflitos na Nigéria, já que facções rivais do partido de governo se preparam para as eleições gerais do começo de 2007. Para Michael Lewis, chefe de pesquisas do Deutsche Bank em Londres, "o grande temor é de que a violência se espalhe pelo país, pois a Opep não está em uma posição muito forte para responde a uma rodada de quebras sucessivas de produção de um de seus membros". Os militantes do Movimento de Emancipação do Delta do Níger, autores da ofensiva, já fizeram ataques parecidos em dezembro e janeiro, danificando quase 10% da infra-estrutura petroleira do país. A maior parte do petróleo da Nigéria vem do delta do rio Níger. Eles pedem a libertação de dois líderes da etnia ijaw que estão presos e maior controle da região sobre as importantes reservas de petróleo do delta do Níger. Especialistas dizem que a situação pode ficar ainda mais tensa se por acaso um dos líderes ijaw morrer sob custódia do governo ou for condenado à morte. Ontem, rebeldes disseram ter explodido um navio militar e um oleoduto operado pela Shell. A empresa ficou impossibilitada de usar uma plataforma de carregamento de petróleo que responde por 15% das exportações do produto no país. Os nove estrangeiros seqüestrados pelos militantes - 3 americanos, 2 egípcios, 2 tailandeses, 1 britânico e 1 filipino - são da empresa americana Willbros, que presta serviços à Shell. A Shell confirmou ter suspendido a produção de 455 mil barris por dia na Nigéria - 19% da produção total do país - desde que os ataques começaram, no sábado. "Continuaremos com a destruição da infra-estrutura de petróleo na região do delta enquanto terminamos as preparações para ataques mais abrangentes", disseram os militantes. O governo afirma que o movimento rebelde é um disfarce para ladrões de petróleo, que desviariam a produção. Os rebeldes dizem que esse desvio de petróleo realmente existe, mas seria feito por gente de alta patente das Forças Armadas. Os ataques colocam em risco os planos do governo de fazer uma grande expansão em sua produção. O ministro do Petróleo da Nigéria, Edmund Daukoru, disse no mês passado que o país iria aumentar sua produção em cerca de 600 mil barris por da até o meio do ano. Esse aumento de 23% levaria o país a produzir 4 milhões de barris por dia até o ano que vem.