Título: Recordes no aguardo de Moody's e Fitch
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 02/03/2006, Finanças, p. C2

A precária liquidez do meio pregão de ontem serviu para suavizar o viés eufórico de todos os segmentos. Para o mercado, o carnaval só está começando. O dia foi de recorde na Bovespa (maior índice da história, 39.177 pontos), no risco-país (piso de 211 pontos-base) e no dólar (cotação mínima do ano). A motivação foi a mesma: a melhora da nota de risco de crédito atribuída ao Brasil pela Standard and Poor's (S&P). A comemoração só não foi mais esfuziante porque a agência colocou a perspectiva para futuros upgrades na categoria "estável". Isso significa que antes de aumentar de novo o rating, ela subirá a expectativa para "positiva". O entendimento geral foi que, diante disso, não se pode esperar por classificação maior do que o BB ainda no atual governo. Mas como o mercado vive de expectativas, resta antecipar num clima festivo os virtuais novos ratings por parte das outras duas classificadoras mundiais que contam. Tanto a americana Moody's quanto a inglesa Fitch, ambas com perspectivas positivas para o Brasil, com suas notas respectivas de Ba3 e BB-, ficaram um degrau abaixo do alcançado na terça-feira pela S&P. A animação dos "vendidos" em dólar esbarrou no piso do ano. Com desvalorização de 1,02%, a moeda fechou no mesmo patamar mínimo já registrado em 2006, os R$ 2,1160 estabelecidos no dia 16 de fevereiro. O recorde anterior se mantém nos R$ 2,0830 fixados em 20 de março de 2001. Os analistas acreditam que a tendência persiste de baixa, mas ninguém ousa prever a velocidade da queda. Mas a impressão é de que será mais difícil quebrar os R$ 2,10 de forma consistente do que, depois, chegar a R$ 2,00. Além da atuação dos "vendidos" em operações derivativas, a velocidade da queda dependerá do ingresso de capital externo para a compra primária de títulos públicos federais. E o primeiro leilão de NTN-B do mês só ocorre na semana que vem.

Dólar cai 1,02% e bate no piso do ano

As intervenções cambiais do Banco Central não são suficientes para impedir a derrocada do dólar. Ontem, em um mercado diminuto (giro de US$ 600 milhões para um movimento normal entra US$ 1,5 bilhão a US$ 2 bilhões), o BC aceitou 19 propostas formuladas por 16 bancos. Comprou a R$ 2,1180, mas não evitou novo mergulho. Por causa do meio expediente de ontem, o BC não fez o tradicional leilão de swaps reversos. Retoma hoje a oferta de 4,55 mil contratos, ampliando sua posição ativa em dólar. A liquidez do mercado monetário no curto pregão pós-Carnaval se limitou a 20% do normal. No pregão de DI futuro da BM&F, o movimento foi de 105 mil contratos. A média diária de fevereiro foi de 572 mil contratos. Os juros caminharam na direção indicada pelo dólar e pelo risco-país. Perto ou abaixo de R$ 2,00, o dólar provocará deflação de preços no atacado e a projeção de IPCA para o ano cairá abaixo da meta de 4,5%. O Copom, que volta a se reunir na semana que vem, não tem razão para temer uma intensificação do ritmo de baixa. O CDI previsto para a virada do trimestre recuou ontem de 16,67% para 16,65%. O contrato para a virada do ano cedeu de 15,34% para 15,27%. O risco-país, que já havia caído na terça-feira para ajustar-se à decisão da S&P, cedeu mais um pouco ontem. Fechou a 211 pontos-base, novo piso histórico, em retrocesso de 3,21%.