Título: Lições que vêm das eleições no Nordeste
Autor: Maria Helena Passos
Fonte: Valor Econômico, 02/03/2006, EU &, p. D6
Política
Mitos não demandam tempo para serem construídos. Ao menos, na interpretação da política. É fácil notar isso quando se lê "Nordeste 2004 - O Voto das Capitais", organizado pelo sociólogo Hugo Cortez, secretário executivo do Observatório Social do Nordeste, e Klaus Hermanns, que na região nordestina representa a Fundação Konrad Adenauer, responsável pela edição. As análises interpretativas oferecidas na obra por diversos especialistas em ciência política debruçam-se sobre as últimas eleições para prefeito nas capitais dos nove Estados nordestinos, envolvendo 6,6 milhões de eleitores, equivalente ao eleitorado paranaense e inserido em uma região que, como salienta o cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, foi a única na qual o PT não cresceu ou se consolidou em 2004. Mais que isso: ainda assim, a tese da bipolarização eleitoral entre PSDB e PT esteve longe de ser uma realidade no Nordeste e tampouco no país como um todo, ao contrário do que se deu em 2000 e do que se propagou nas análises feitas após o pleito do ano passado, observa o especialista. Segundo Nicolau, a bipolarização partidária nacional foi um mito criado pela eleição de José Serra como prefeito paulistano, derrotando a petista Marta Suplicy. Também foi fruto do fato de que em capitais e cidades médias brasileiras os dois partidos tenham sido os mais votados, como de resto já ocorrera em 2000. Nicolau demonstra que as eleições para prefeito, assim como para câmaras de vereadores, no Brasil têm íntima relação com os pleitos para assembléias legislativas e a Câmara dos Deputados, mas quase nenhuma com os pleitos para cargos dos executivos estadual e federal ou o Senado. Em Pernambuco, por exemplo, como nota Túlio Velho Barreto, cientista político do Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco, passar pelo cargo de prefeito é requisito indispensável para se chegar ao Palácio das Princesas. Já em Salvador, uma coisa nada tem a ver com a outra. Inclusive na lógica do carlismo, o governo do Estado é quem influi na eleição municipal, quando os correligionários de Antonio Carlos Magalhães lograram eleger-se prefeito. Já no Ceará, a prefeitura de Fortaleza, eleita pelo segundo maior eleitorado entre as capitais nordestinas, sempre esteve do lado oposto ao do governador no espectro político partidário. O partido do governo federal ganhou uma prefeitura a mais na região nordestina em 2004, somando atualmente três - Recife e Aracaju completam a lista. Mas pela vontade de seus dirigentes nacionais talvez a tivesse perdido. A vitória da candidatura própria da professora de comunicação Luizianne Lins em Fortaleza, foi um arrastão de última hora, que contrariava as alianças petistas no Ceará. Para o cientista político Filomeno Moraes, professor das universidades de Fortaleza e Estadual do Ceará, a escolha do eleitorado foi pela autonomia - como atesta, inclusive, a preferência obtida por Moroni Torgan (PFL/PAN/PTC), segundo colocado na disputa - em relação às forças políticas dominantes no espectro político. Essa atitude autonomista, que, em seu artigo, o melhor do livro, o cientista político, ex-vereador e deputado federal baiano Paulo Fábio Dantas Neto prefere chamar de opção pela "política", deu a vitória ao pedetista João Henrique Carneiro em Salvador, o maior colégio eleitoral entres as capitais nordestinas - 1,585 milhão de eleitores -, derrotando o carlismo personificado pela tentativa pefelista de eleger César Borges para dar continuidade a oito anos de gestão de Antonio Imbassahy, elogiada pelas suas realizações administrativas. Alerta Dantas Neto que, entretanto, ainda resta ver se o carlismo (ou o neocarlismo) acabou realmente na capital da Bahia. Chama atenção para o fato de que, mais impressionante que a eleição de João Henrique, um candidato montado em uma plataforma de causas específicas e contraditórias com a realidade do exercício do poder da máquina pública, foi o retorno da turma de ACM em 1996 à capital baiana, cujo eleitorado já havia sido ganho pelos anticarlistas na década de 70. E, igualmente, para o aspecto de, no ano passado, ter sido eleito o representante de um partido de oposição ao governo federal. Mas estaria o eleitor soterapolitano disposto a, ao apoiar uma maior participação na administração da cidade, abrir mão dos progressos de gestão que a familiaridade com o governo estadual pefelista permitiu aos neocarlistas implantar na cidade? A indagação fica no ar, mas respondê-la é crucial para se entender como a eleição de 2004 joga indiretamente no tabuleiro do xadrez político do pleito presidencial de 2006. As peças nordestinas desse jogo estão todas envolvidas em eleições para a capitais nordestinas, que, em conjunto, deram e reafirmaram a presença do PT no governo do segundo e terceiro maior eleitorado (Recife e Fortaleza), deu ao PSB a segunda maior força política na região e somente bipolarizou a política com o PSDB em capitais menores. Os tucanos, aliás, seguem patinando nas capitais do Nordeste: perderam João Pessoa para o PSB enquanto mantiveram Teresina. Assim, não dá mesmo para falar em bipolarização PT/PSDB no Nordeste.