Título: Os riscos das pesquisas eleitorais de fevereiro
Autor: Walder de Góes
Fonte: Valor Econômico, 22/02/2006, Opinião, p. A8

Cenário segue tecnicamente aberto a novidades, mas o custo de entrada continua elevado

A campanha presidencial de 2006 ganhou um elemento novo de suspense e emoção. Além da expectativa sobre lançamento de candidaturas e alternativas de programas, as próprias pesquisas eleitorais passaram a oferecer causas e movimentos imprevistos. Não faz muito tempo, "sumiram" as simulações de segundo turno de uma pesquisa encomendada ao Ibope. Desde quarta-feira passada, a pesquisa CNT/Sensus causa polêmica. Numa simulação de primeiro turno com quatro candidatos, a vantagem de Lula sobre Serra é de 11 pontos. Quando dois outros candidatos são apresentados, a vantagem cai para cinco pontos, apesar dos nomes incluídos não somarem 3% das preferências. Sempre haverá explicações técnicas para pesos diferentes das regiões em cada pesquisa e mesmo a simulação de segundo turno que havia "sumido" terminou aparecendo, mas parece haver a emergência de uma nova ordem de fatos a ser levado em conta. Afinal, nesse momento, questões importantes sobre a sucessão estão pendentes e alguns pontos em uma pesquisa específica, no momento certo, pode fazer toda a diferença. Nesse sentido, uma avaliação mais detida das informações de momento pode ajudar a separar o joio do trigo em matéria de pesquisas eleitorais. Para começar, talvez seja muito cedo para alimentar angústias com relação a números referentes à primeira semana de fevereiro, antes do carnaval. Em 2002, a pesquisa CNT/Sensus relativa ao mês de fevereiro mostrava Lula na liderança da simulação de primeiro turno com 26% das intenções de voto, seguido de Roseana Sarney, com 25%. Anthony Garotinho era o terceiro colocado, com 12% das preferências. Quando Roseana era retirada da lista, Serra subia a 16%, ainda atrás de Anthony Garotinho, que passava a 17%, enquanto Lula liderava com 32%. A lição é simples. A emergência de um novo nome ainda pode fazer toda a diferença e opções não faltam: Nelson Jobim, Germano Rigotto, Cristóvão Buarque. Não que tais nomes tenham condições de lutar pela liderança, mas bem podem captar frações de voto capazes de fazer a diferença mais tarde. Em fevereiro de 2002, por exemplo, Ciro Gomes era quase invisível com 7% das preferências, mas teria ascensão rápida logo depois do início da campanha oficial. Quem olhasse os números de fevereiro de Sensus, não veria ainda a polarização Lula-Serra, que só seria estabelecida em setembro de 2002.

Um terceiro nome poderá não ter condições de lutar pela liderança, porém pode captar votos capazes de fazer a diferença

Naturalmente, as pesquisas não revelam apenas patamares numéricos, mas estruturas de competição. Em fevereiro de 2002, Lula não tinha ainda o monopólio do voto anti-Cardoso, mas certamente liderava nesse contingente desde o ano anterior. Serra começava atrás por absoluta falta de visibilidade nacional como candidato, justamente o que ocorre agora com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Nesse sentido, as pesquisas atuais têm algo de sólido a dizer. A volatilidade das preferências por Lula, drástica na queda e na recuperação, acompanhando a variação dos indecisos, impressiona, mas justifica a aposta em sua candidatura. Mesmo nas piores circunstâncias, ele tem um piso razoável. Uma campanha eleitoral violenta por parte da oposição, bem sucedida junto ao eleitor, o devolveria ao patamar de setembro e ele continuaria na disputa. A mesma análise é válida para Serra. Dessa vez, ele larga na frente, seja pelo efeito do recall, seja por sua maior visibilidade nacional como anti-Lula. Apesar da recuperação de Lula, Serra continua mais do que viável, enquanto o governador Alckmin seria apenas um salto no escuro. Em suma, a agitação corrente por conta das pesquisas de fevereiro tem significado restrito. O cenário continua tecnicamente aberto a novidades, mas o custo de entrada segue elevado. Para romper a barreira representada por um presidente candidato e por um tucano sustentado pelo recall, um terceiro nome terá de produzir uma surpresa razoável.