Título: Ofensiva de Alckmin aumenta constrangimento da direção do partido
Autor: Tatiana Bautzer
Fonte: Valor Econômico, 23/02/2006, Política, p. A8

A passagem do governador Geraldo Alckmin por Brasília para um jantar com a bancada do PSDB na Câmara, na noite de quarta-feira, aprofundou o clima de mal-estar na cúpula tucana com a agressividade com a qual ele se lançou à disputa pela candidatura do partido à Presidência. Muito embora tenha declarado de público que "o soldado Alckmin está à frente do batalhão" se não for o escolhido, nas conversas individuais o governador questionou duramente o processo de escolha em curso. "Eu vou acatar a decisão de quem?", perguntava Alckmin em cada roda. "Quem aqui foi ouvido?", insistia. O governador disse que cumpriu toda uma história no PSDB e que não é justo que não tenha a oportunidade de ter o seu nome colocado na disputa. Candidato, não tem dúvidas de que passa para o segundo turno das eleições, o que também acredita que aconteça com José Serra. O governador manifestou confiança de que, com a ampliação das consultas, será o indicado. A postura agressiva de Alckmin tem irritado boa parte da cúpula do PSDB, sendo que até a condução dada ao assunto pelo presidente da sigla, Tasso Jereissati (CE), passou a ser questionada. Pelo menos um integrante da Executiva Nacional considera que Tasso não tem exercido autoridade para impedir que Alckmin exponha o partido. A avaliação é que Alckmin tinha o direito de se posicionar na disputa, mas que depois "esticou demais a corda", na expressão de um dirigente tucano. Embora admitam que Serra tem menos liberdade de movimento do que Alckmin, a cúpula tucana também critica o que considera um certo "imobilismo" do prefeito de São Paulo. Tasso Jereissati, no entanto, acha que a recuperação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas era esperada e se deve ao fato de "ser um candidato só em campanha, usando abusivamente da máquina pública". Os tucanos avaliam a possibilidade de uma ação judicial contra o que denominam viagens eleitorais do presidente. Tasso, assim como Alckmin e Serra, acreditam que só com o início da campanha eleitoral, com os candidatos em igualdades de condições, as pesquisas refletirão com maior precisão o quadro eleitoral. Geraldo Alckmin fez o mesmo raciocínio no jantar com os deputados da bancada do PSDB na Câmara: "É artificial o crescimento nas pesquisas", disse Alckmin. Argumentou que o presidente "corre sozinho e tem grande exposição na mídia". Para o governador paulista, a disputa pra valer começará depois da Copa do Mundo. Alckmin lembrou que o ex-governador de Minas Gerais Hélio Garcia costumava dizer que as coisas acontecem em eleição depois da parada militar: "Depois de 7 de setembro é que as coisas mudam. O embate é em clima de Fla-Flu", afirmou. A exemplo de Fernando Henrique Cardoso, o governador paulista também demonstra disposição de explorar a questão ética na campanha eleitoral, se for indicado candidato pelo PSDB: "O presidente Lula decepcionou o Brasil. É um governo frouxo, fraco do ponto de vista ético", afirmou. Em mais de uma ocasião considerou a si mesmo o nome certo para fazer o país crescer a um ritmo acelerado: "O Brasil está na lanterna, não pode perder a oportunidade de crescer. É preciso pisar fundo no acelerador", disse, recorrendo mais uma vez a uma imagem popular. Acrescentou que será "capaz de "apontar soluções para o crescimento efetivo". Em mais de uma roda de deputados, Alckmin ouviu a avaliação de que Serra terá grandes dificuldades para explicar sua saída da prefeitura de São Paulo, tendo inclusive dito, numa entrevista à televisão, que pediria que não votassem nele, caso descumprisse a promessa. Curiosamente, ontem, o senador Jefferson Péres (PDT-AM), questionou no Senado como um homem que quer ser presidente da República estava pensando em "desmoralizar" a palavra dada diante da Nação. Já o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), disse que espera "coragem e generosidade" dos dois candidatos, após a definição do nome. (RC e MLD)