Título: Companhias buscam parceiros locais
Autor: Raquel Landim e Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 13/03/2006, Brasil, p. A3

Um número crescente de fabricantes brasileiros de calçados e artigos têxteis está procurando um parceiro na Argentina. Muitos não fecharam acordo pelo simples fato de que ainda não encontraram o parceiro ideal. Outros ainda esperam alguma reação do câmbio doméstico. Para os calçadistas gaúchos, a possibilidade de instalar bases industriais na Argentina tem um motivador a mais: a imposição do sistema de licenças não-automáticas para o ingresso dos produtos no fim de agosto de 2005 reduziu em 10% os volumes importados no ano passado. O custo de produção é outro atrativo à transferência de linhas. Embora não haja cálculos precisos, os fabricantes estimam que na comparação entre produtos similares a vantagem argentina pode chegar a 30%. "Só a taxa de juros aplicada em cada país faz uma grande diferença", comenta o gerente de exportação da West Coast, de Ivoti (RS), Alexandre Dornelles. O presidente da Calçados Picadilly, de Igrejinha (RS), Paulo Grings, admite terceirizar a montagem final de calçados na Argentina se o "estresse" nas exportações para o vizinho e a falta de iniciativa do governo brasileiro em defesa da indústria nacional persistirem no segundo semestre. "Os acordos beneficiam apenas os argentinos", reclama. De acordo com ele, no fim deste mês a empresa terá 200 mil pares prontos esperando pela liberação para atravessar a fronteira há mais de 60 dias, prazo máximo estipulado no ano passado para a concessão das licenças. "Nem isto está sendo cumprido", comenta. A West Coast também está estudando firmar parceria com um fabricante local para finalizar na Argentina calçados desmontados enviados do Brasil, explica Dornelles, que já tem 50 mil pares prontos à espera de licença para ingressar no país, alguns há mais de 70 dias. O projeto, incluindo o treinamento da mão-de-obra local, poderá levar cerca de um ano para ser implantado e, conforme o executivo, a idéia é ainda aproveitar os acordos bilaterais mantidos pelo governo argentino para exportar a partir de lá para outros países. Para o vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Ricardo Wirth, é "natural" que empresas brasileiras invistam na Argentina desde que o governo federal decidiu "não jogar mais pesado" quando os argentinos pressionaram para limitar as importações. Segundo ele, é mais fácil para as indústrias gaúchas se estabelecer no país vizinho do que no Nordeste do Brasil, porque a Argentina tem um bom nível de suprimento de matérias-primas e o que faltar pode facilmente ser importado. Grings, da Picadilly, explica que a empresa já foi convidada pelo secretário da Indústria da Argentina, Miguel Peirano, o mesmo que negociou as restrições às importações com o governo brasileiro, a se instalar no país. "Não tenho como abrir mão de um mercado desses", afirma ele. No ano passado, os argentinos compraram 600 mil pares da empresa, metade do volume de 2001, mas ainda assim o equivalente a 26% das exportações globais de 2,3 milhões de pares. A produção total oscila entre 8,5 milhões e 9 milhões de pares por ano. Da West Coast, a Argentina comprou 70 mil pares em 2005, o dobro de 2004. "Mas poderíamos ter chegado a 100 mil pares se não fossem as licenças não-automáticas", afirma Dornelles. O setor têxtil também vem avaliando a possibilidade voltar ao país vizinho. De acordo com o diretor de exportação da Hering, Ulrich Kuhn, o assunto Argentina vem sendo discutido desde o ano passado pela empresa, mas não foi efetivado um retorno mais forte àquele país porque a empresa ainda não encontrou a parceria ideal. A empresa não pretende ter uma subsidiária como no passado, mas um parceiro que "entenda a cultura Argentina e tenha a nossa visão empresarial", diz Kuhn. A chegada novamente ao solo argentino é tida como uma oportunidade neste momento em que o setor têxtil brasileiro está preocupado com a concorrência asiática em dois grandes mercados consumidores: Estados Unidos e Europa. Mas as experiências do passado fazem as indústrias ter cautela. É provável que o caminho seja via aquisição de fábricas ou terceirização da produção, uma maneira menos arriscada de investir. Desde o ano passado, as vendas vêm crescendo. A Hering vendeu para Argentina US$ 2,3 milhões em 2005 e espera vender neste ano US$ 3 milhões. Mas o cenário não é o mesmo de antigamente. A Hering chegou a ter 61 lojas próprias na Argentina. Hoje ela vende principalmente produtos que fabrica com marcas de terceiros. A marca própria não saiu do mercado, mas deixou de ser líder. A subsidiária que existia foi fechada em 2002, após a crise econômica argentina. A Argentina chama a atenção das indústrias por vários fatores conjunturais. Os custos de produção são vistos como menores do que no Brasil. Aqui no Brasil, diz Kuhn, o custo de um trabalhador para uma empresa é o dobro do salário que é pago a ele. Na Argentina, seria 60% maior e não o dobro. A Karsten também voltou a prestar mais atenção na Argentina. A empresa já teve subsidiária naquele país, fechada na crise. Agora, diz o presidente da companhia, Carlos Odebrecht, a volta acontece de forma mais segura. Há um ano, os negócios são feitos pela distribuidora New Country Life e por um representante comercial. No curto prazo, ele não pensa em ter uma subsidiária local.